Viveiro - A Sufocante “Vida Perfeita”

Crítica: Viveiro

Gustavo Fernandes


“ - Todas as Nuvens Parecem Nuvens. Perfeitinhas. ”

É comum chegar aos 25 anos de idade e começar a sofrer devido à crise existencial proveniente da forte pressão social que exige estabilidade financeira, amorosa e em diversos outros campos da vida ainda nessa faixa etária. Não há escapatória: se você vive em sociedade, está fadado a sofrer com as amarras sociais mais cedo ou mais tarde - geralmente desde o início da vida. Em seu segundo longa-metragem, Lorcan Finnegan resolve tratar de todos esses anseios através da abordagem de um específico: o medo de não ter uma moradia adequada, ou de ter uma adequada até demais.


Em Viveiro, Finnegan repete a bem-sucedida parceria com o roteirista Garret Shanley, com quem lançou o elogiado Sem Nome (2016). A trama acompanha um casal que, ao visitar um imóvel, acaba ficando preso em um condomínio que mais parece um labirinto, com todas as casas e ruas extremamente parecidas. Com o tempo, o espectador vai se tornando cada vez mais cético em relação à escapatória dos protagonistas dali, praticamente desejando a resignação dos personagens em relação ao que o destino lhes trouxe. Afinal, eles têm tudo o que precisam: moradia, certo nível de conforto, alimentação e, acima de qualquer coisa, estão em família. A perspicácia do filme é justamente essa: apesar de terem tudo o que precisam para viver, os personagens não querem estar ali.


O elenco é encabeçado competentemente por Imogen Poots e Jesse Eisenberg. Ambos encarnam com maestria o cansaço e a impaciência inerentes aos casais suburbanos que não têm alternativa a não ser viver a vida que a sociedade exige que eles vivam. É interessante como, ao longo dos 90 minutos de projeção, o casal passa a exercer, de forma involuntária, os papéis comuns aos casais suburbanos: ela cuidando da casa e do filho - que chega encaixotado como uma encomenda -; e ele se dedicando de forma praticamente mecânica a uma atividade externa que não o proporciona prazer algum.


Esteticamente, é interessante como o filme faz uso de tons que variam entre o azul tiffany e o azul turquesa. O emprego da coloração nos figurinos, objetos cenográficos e em todas as casas do condomínio apenas fortifica a ideia de artificialidade de todo aquele universo em que os personagens encontram-se presos - em contraste com o vívido verde que circunda o ninho de pássaros retratado na cena de abertura. Visualmente, o filme aproxima-se da claustrofóbica cidade cenográfica de O Show de Truman (1995) - apesar de, aqui, a perspectiva ser bem mais pessimista, pois não há chance de escapatória, afinal, os personagens continuarão presos às convenções sociais, mesmo se conseguirem escapar do “viveiro”. Talvez o objetivo da direção de arte seja justamente o de provocar reflexões sobre a suposta naturalidade daquele estilo de vida, comum ao capitalismo e, principalmente, aos adeptos do “American way of life”.


A direção de Finnegan é certeira ao acompanhar a progressiva decadência emocional dos personagens. O uso cada vez mais frequente de câmera na mão e de planos mais fechados imerge com êxito o espectador na incontrovertível insatisfação vivenciada por Gemma e Tom - que passam a ser vistos, ao longo do filme, como meras peças em um esquema projetado por forças superiores, das quais sentimos, desde o princípio, que eles não podem escapar - assim como todos nós. A deficiência de Viveiro está nos momentos em que o filme pede por mais força em sua condução. Os momentos mais emotivos, que exigem mais dos protagonistas, são breves e pouco expressivos. A plasticidade proposital acaba por enfraquecer o peso de cenas que deveriam ser mais emblemáticas, fazendo com que o filme perca espírito em prol da atmosfera pessimista que o permeia.


Viveiro é um filme metafórico, passível de diversas interpretações - embora a maioria descambe em conclusões bem parecidas. Há quem acredita que trata-se de um filme sobre extraterrestres realizando experimentos com seres terrestres. Há quem não enxerga necessidade em encontrar respostas para a trama, contentando-se com as reflexões provocadas por ela. Como espectador, entendo o primeiro grupo. Mas confesso me identificar mais com o segundo. Afinal, o filme é, do início ao fim, uma metáfora bem clara aos mais atentos, e certamente agradará os fãs de horror e ficção científica que gostam de tramas progressivas e pouco mastigadas.


Nota: 3,5/5 Lágrimas


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