Quando a brutalidade se torna vulnerabilidade.

Crítica: Corpo e Alma (2017)

Caio Scovino


Começando uma série de críticas à cerca do cinema do leste europeu, escolherei um país por vez e indicarei algum filme que acho pertinente o bastante para representar o mesmo cinematograficamente.


Em 2017, “Corpo e alma”, dirigido pela húngara Ildikó Enyedi, ganhava o urso de ouro no festival de Berlim, no ano seguinte foi o escolhido para representar a Hungria no Oscar de 2018, onde conseguiu ser indicado a categoria de melhor filme estrangeiro. Honras a parte, por mais que merecidas, o filme é uma obra única que trabalha com a oposição da rispidez de da sensibilidade em diversos aspectos da convivência.


A trama gira em torno de dois funcionários de um frigorífico, onde logo no início do filme temos a oposição de imagens de cervos correndo livres no campo dispostas contra imagens do abatimento de bovinos. A jovem Mária chega a empresa para ser a nova supervisora de produção, e chama a atenção cedo para seu comportamento metódico e frio. Paralelamente, Endre é o gerente do estabelecimento, com anos de experiência é estabelecido seu endurecimento frente a constantes situações onde decisões precisavam ser tomadas.


Aos poucos vamos conhecendo os personagens de forma muito orgânica, graças a uma direção firme porém assertiva, econômica em diálogos e abundante em nuances. A relação entre os dois é o coração do filme, assim como os diversos aspectos que a envolve, passando por campos psiquiátricos, amorosos e oníricos.


Visualmente o filme é único, sabendo construir um visual vistoso dentro de um ambiente frio, assim como as pessoas que o habitam. Com uma fotografia assertiva em composições visual e uma mise-on-scène rígida, o filme flui como uma partida de xadrez, por meio de movimentos calculados, mas que tem uma trajetória intrínseca e que se torna cada vez mais íntima ao longo de seu desenvolvimento.


A atriz Alexandra Borbély se encontra sublime, a construção da personagem é vista em cada movimento da mesma, que inicialmente se percebe como rígida e frívola, se desdobra em uma sensibilidade e intimidade constrangedora. Em contrapartida Géza Morcsányi, que com 65 anos atua pela primeira vez nas telas, tem uma vivência em seu olhar e atrai a atenção instantaneamente. Em seu caso não sei dizer se foi um casting muito bem feito devido a não possibilidade de comparação com outros trabalhos do ator, mas nada diminui sua força e imponência no papel.


Em termos gerais, o filme é perfeito e único em representar uma relação tão conturbada. Sendo assim o meu escolhido para apresentar o vasto cinema húngaro para quem desejar conhecer mais. De uma tradição, como outros países do leste europeu que tiveram períodos políticos de governos socialistas, o aspecto autoral e uma máquina estatal de produção cinematográfica faz com que filmes como esse sejam produzidos.


Nota: 5/5 Lágrimas


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