O mundo de Coraline e seus segredos

Análise: Coraline e o Mundo Secreto (2009)

Julia Alfa


Ao dar play em Coraline e o Mundo Secreto, a música temática Mechanical Lullaby começa a tocar. Vozes infantis cantam sobre outro mundo e avisam seus ouvintes para que corram. Visualmente, assistimos a uma mão metálica desmontar inteiramente uma boneca de pano; tirar seu enchimento, seus fios de cabelo, descosturar seus olhos. Logo em seguida, a boneca é remontada, agora com uma nova faceta: a de Coraline. Os momentos iniciais do stop-motion entregam a essência do filme.


A primeira aparição de Coraline é um tanto simbólica. Tendo acabado de se mudar para uma nova casa, a garota de cabelos azuis e capa de chuva amarela decide explorar o local, e, para isso, usa uma vara de radiestesia: um instrumento pré-histórico guiado pela sensibilidade, de atividade oculta, também relacionado à bruxaria. É por isso que, logo em seguida, o garoto Wybie aparece a chama de “bruxa d’água”. Apesar de aparentarem ser detalhes e comentários irrelevantes, ao decorrer do filme vemos a garota cada vez mais cercada de magia e elementos místicos.


Coraline imediatamente desgosta do garoto, assim como tinha desgostado de tudo desde que havia se mudado. Wybie, ou Wyborne (com som semelhante a “why born”) tem aparência esquisita, fala demais e muda o nome de Coraline para Caroline como tantas outras pessoas. Todos esse elementos influenciam sua recusa, mas Wybie se mostra muito importante para a história. É ele que entrega à garota sua réplica em boneca, a mesma que aparece na introdução do filme, e é a partir desse momento que a menina de cabelos azuis entra na armadilha; sua vida é observada pelos olhos da boneca.


A casa para a qual se mudaram é antiga e dividida em três apartamentos. Além de onde moram Coraline e seus pais, existe o apartamento inferior, onde moram a Srta. Spink e Forcible, antigas atrizes de teatro, e o apartamento inferior, habitado pelo Sr. Bobinsky e seus ratos circenses. É interessante acentuar que mesmo esses personagens são tocados por leves feitiçarias, como as ex-atrizes, que acreditam em costumes como teimancia (a arte de ler folhas de chá), e entregam à Coraline uma pedra com um buraco no meio - a qual a garota usa para se salvar no final. Sr. Bobinsky, por sua vez, conversa com seus ratos e compõe músicas para que cantem.


Para Coraline, nenhuma daquelas pessoas se encaixava nos padrões de normalidade, mas ela continuava interagindo com eles de qualquer maneira, já que seus pais atolavam-se demais em seus próprios trabalhos para dividirem atenção com a filha. A apatia e desinteresse dos pais da garota são ferozes, e talvez piores ainda vistos pelos olhos de 12 anos. Em certo momento, no início do filme, Coraline conta à sua mãe que quase caiu no poço que explorava, e que poderia ter morrido. A resposta de sua mãe é “que legal”.


Não verbalmente, Coraline anseia por coisas melhores, e é isso que ela encontra atrás de uma pequena porta: um mundo perfeito. Naquele lugar, seus pais te dão atenção integralmente. A Outra Mãe é esplêndida, como a sua nunca foi. Os almoços e jantares são deliciosos e completos, em vez de pratos instantâneos e congelados. O jardim é moldado no formato de seu rosto, de tanto que seus pais a amam. Wybie tem sua boca costurada e não pode mais tagarelar. Mesmo seus vizinhos desregulados eram perfeitos. A única diferença parecia mínima, a primeiro ver: no outro mundo, todos possuíam botões costurados no lugar dos olhos.


De forma consciente ou não, o desenvolvimento de Coraline aproxima-se com a ideia do “Grande Outro” lacaniano. Na psicanálise, o Grande Outro é uma resposta inconsciente invertida do indivíduo. Dessa forma, quando analisamos o mundo secreto de Coraline, tudo é o oposto da sua realidade. Tudo que não a satisfaz em seu mundo de origem é perfeitamente remodelado atrás da porta. Mesmo sua mãe, tão impaciente, seca e desinteressada é vestida pela Outra Mãe com excesso de afeição, atenção e amor. Isso acontece por causa de sua boneca de pano, a acompanhando desde o início e marcando tudo que a desagradava.


O tempo que Coraline passa entre os dois mundos serve para que ela os compare e crie preferência por aquele melhorado. Próximo aos 42 minutos de filme, quando a mãe original recusa comprar as luvas que a garota tanta queria, ela chega a responder: “Minha Outra Mãe compraria para mim”. Sua decisão já estava sendo tomada.


Outro personagem importante para Coraline é o gato preto. Presente desde o início, aparecendo e desaparecendo sem muitas explicações, o gato preto funciona na história como o superego da garota. Ele age como sua consciência na intenção de protegê-la. Mesmo com seus olhos ainda no lugar, o gato preto mostra a Coraline tudo aquilo que ela não consegue (ou não quer) ver. Graças a ele, a garota percebe como o Outro Mundo é uma ilusão; uma armadilha. A Outra Mãe já estava preparando-se para costurar os olhos de Coraline e prendê-la naquela realidade para sempre.


A garota foge, mas percebe, entretanto, que não era a única correndo risco naquela situação: os pais de Coraline estavam desaparecidos, aprisionados. Os olhos são os espelhos da alma, e é isso que a Outra Mãe deseja. Convenientemente, atrás de um espelho, estão escondidas as almas das outras crianças vítimas daquela realidade; entre elas, o rosto da boneca anterior a Coraline. Nesse momento, ela precisa deixar seus medos de lado e ser forte o bastante para salvar sua própria alma, e a dos outros.


O mundo perfeito se desmonta, porque nunca existiu de fato. A fragilidade do ser humano está exposta; quão longe podemos chegar para obtermos aquilo que queremos ver (ou ignoremos aquilo que não gostamos de enxergar)? Qual o preço que estamos dispostos a pagar pela perfeição? Os olhos; a alma?


Coraline atravessou seu mundo ao buscar por consertos para aquelas coisas que imaginava estarem quebradas. Em apenas seus 12 anos de idade, é compreensível sua obstinação com todas aquelas coisas que deseja, e o amor de sua mãe é o maior deles. Quando enfrenta sua Outra Mãe, Coraline a ouve dizer: “até a mais orgulhosa pode ser dobrada, pelo amor...”. A frase funciona perfeitamente para seu contexto: tão teimosa, a garota caiu nas teias do ser manipulador que a controlava, porque além de todas as pequenas promessas, lá ela realmente se sentia querida e amada.


Coraline consegue enganar a Outra Mãe e se safa por pouco, graças a ajuda do gato preto. Ela se salva, salva a alma das antigas crianças e liberta seus pais. Tudo que ela tanto repudiava torna-se agradável a seu novo ver; confortavelmente real. Não é o fim, entretanto. A passagem ainda está ali, e Coraline precisa se livrar da chave que abria a porta. Há um pequeno momento estranho no qual o gato preto tenta impedi-la. Ele não consegue. Em um último fôlego, a garota escapa dos finos dedos metálicos da matriarca do Outro Mundo e joga a chave no fundo de um extenso poço.


No final, tudo está aparentemente bem. Há uma festa no jardim, e todos os apartamentos são convidados. Enquanto a visão do jardim se expande, vemos seu verdadeiro formato: uma caveira seca do rosto da Outra Mãe. Uma marca assustadora deixada para trás - se for apenas isso. Mais adiante, o gato preto aparece na tela e quebra a quarta parede numa espécie de despedida. Então, ele desaparece atrás do poste, da mesma forma que ele fazia entre os mundos.


O final suspeito e feliz deixa questionamentos e teorias. Talvez o Outro Mundo ainda esteja lá, e o gato preto continue o visitando para aconselhar a próxima vítima - ou talvez para guiá-la exatamente aonde ele quer que ela vá. E, se o gato preto consegue ir até lá, a passagem não foi completamente fechada.


Talvez aquela nunca tenha sido a chave.

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