O Gambito da Rainha: A excelência em sete movimentos

Crítica: O Gambito da Rainha (2020)

Julia Alfa


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Esse é o gambito da rainha: uma abertura do xadrez intencional para emboscar seu adversário. No dia 23 de outubro, a Netflix lançou uma minissérie de mesmo nome, que, assim como o jogo de tabuleiro, usufrui de cada minuto de sua duração. Estrelada pela brilhante jovem atriz Anya Taylor-Joy, O Gambito da Rainha é facilmente a melhor minissérie do ano de 2020.


A produção é completamente detalhista ao se tratar do xadrez. Todos os sete episódios são nomes referentes ao jogo e suas jogadas, tais como o primeiro “Aberturas” e o terceiro “Peões Duplos”. A minissérie também foi acompanhada de especialistas do jogo, portanto todos os movimentos de peças apresentados em tela são precisos, e jogadores de xadrez podem realmente compreender as jogadas — mas isso não é o bastante para incomodar espectadores leigos.


A história de Elizabeth “Beth” Harmon é tão cativante e bem construída que muitos dos espectadores se questionaram se a produção é baseada em uma história real. Ela não é: O Gambito da Rainha nasce a partir do livro ficcional The Queen’s Gambit, do americano Walter Travis. Dessa maneira, o cuidado com a série e com seus pormenores é ainda mais impressionante. A fantástica direção de arte nos insere nas décadas de 50 e 60 com maestria, e a narrativa nos apresenta os dilemas de Beth enquanto cresce no século XX.

Órfã aos 9 anos de idade, Beth é enviada a um orfanato de garotas, onde tem o primeiro contato com dois pilares da minissérie: xadrez e pílulas calmantes. Quando mais se fascinava pelo xadrez, a criança desenvolvia, sem saber, um vício por entorpecentes; ela acreditava que, graças a isso, ela conseguia levar sua mente aos jogos e enxergá-los com maior facilidade. Tal vício a acompanha ao longo da minissérie, enquanto conhecemos mais sobre a garota e seus traumas.


Com sua história triste, mas determinada, Elizabeth Harmon consegue chegar próximo ao topo das competições de xadrez ainda na adolescência. Seu maior adversário torna-se, então, nenhum outro jogador de seu país, mas o russo Borgov. Em certo momento, quando não sabe que Beth está escutando, o russo diz: “Ela é órfã. Sobrevivente. Ela é como nós. Perder não é uma opção para ela”. Borgov não estava errado. Vítima de um passado trágico, Beth encontra no xadrez o controle que ela não pode exercer sobre o mundo. Em sua primeira entrevista, ela diz que, caso se machuque durante o jogo, a culpa é somente dela.


A evolução da garota prodígio é primorosa. Há o cuidado da direção de arte para que a progressão em suas roupas e estilo de cabelo seja notado a partir de seu desenvolvimento. Com poucos modelos femininos em um universo dominado por homens, Beth leva seu tempo até encontrar-se como mulher. Ruiva, a garota é um ponto colorido no meio de tantos homens de terno — escolha perspicaz da equipe de filmagens. Contextualizado em um momento histórico no qual as mulheres não possuíam tanto destaque, a minissérie consegue utilizar o protagonismo feminino com excelência e, ainda assim, permanecer na autenticidade do século passado.


Por fim, o maior desafio de Beth Harmon não é ser a melhor jogadora de xadrez; esse é seu sonho. Ela deve vencer em outros pontos de sua vida: o vício, a depressão. Seu potencial não é reduzido a dosagens de entorpecentes; ele está ali, mesmo quando nada mais está. É uma extensa jornada até que a garota prodígio aprenda isso, e nós podemos acompanhá-la ao longo dos sete episódios — e depois dar play novamente, para desfrutar um pouco mais.


O Gambito da Rainha nos entrega uma história excepcional e bem produzida e, assim, diverge de tantas outras produções no catálogo da Netflix. Por ser uma minissérie, entretanto, e não possuir continuações, a divulgação está um pouco mais lenta; mas não deveria! A história de Elizabeth Harmon não é real, mas a excelência de O Gambito da Rainha é, e, por isso, a minissérie é digna de ser celebrada com reconhecimento.


Nota: 5/5 Lágrimas


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