A vida imita a arte, e a arte se banca em nostalgia pra millennials

Crítica: iCarly (2021)

Marco Souza


Não é estranho pensar em como iCarly (2007–2012) foi de fato um marco cultural? O programa não só profetizou a ascensão do YouTube e a nossa dependência para com o mundo online, como por si só plantou as sementes de um fruto que os millennials e zoomers iriam colher e consumir em uma base diária. Catorze anos depois de sua estreia, iCarly finalmente faz o seu retorno, sendo transportado no tempo para uma sociedade que a própria série ajudou a moldar. Em um cenário contemporâneo onde o diferencial do programa não se tornou obsoleto, mas sim a norma, como será que a blogueira e influenciadora original, Carly Shay (Miranda Cosgrove), se adapta às mais novas tendências de ambos os públicos real e fictício?

Essa análise será dividida em três partes: a primeira, que relata as origens do programa e das primeiras temporadas, agora com um olhar de retrospectiva e crítica, por conta das novas informações que adquirimos desde o fim da série; a segunda, que introduz o revival do programa e suas mudanças e readaptações em consideração com o original; e a terceira, uma breve discussão e conclusão que revolve no passado, presente, e futuro da série, que já foi renovada para uma segunda temporada.

  • O QUE É ICARLY : AS ORIGENS E SUAS CONTROVÉRISAS

iCarly é uma série de comédia, estilo sitcom, produzida pelo canal Nickelodeon (ou só “Nick”, para os íntimos), que foi originalmente direcionada ao público infanto-juvenil, assim como o restante da programação da emissora. A trama segue Carly Shay (Miranda Cosgrove), uma menina no ensino fundamental que cria seu próprio webshow (traduzível atualmente para algo como um canal no YouTube ou na Twitch) com sua melhor amiga Sam (Jennette McCurdy) como co-apresentadora, e seu amigo Freddie (Nathan Kress) como produtor e câmera, além do irmão mais velho Spencer (Jerry Trainor), que ajuda como pode aqui e ali. Mais tarde o personagem Gibby (Noah Munck) seria adicionado à equação, como o quinto protagonista, mas prefiro evitar falar da “idade das trevas” do programa.

O programa foi visionado pelo “pé-dófilo” (calma que já vem a explicação) produtor Dan Schneider, reconhecido por ter criado hits similares para o canal Nick, como: Zoey 101 (2005-2008), O Show da Amanda (1999-2002), Brilhante Victória (2010-2013) e Drake & Josh (2004-2007), mas nenhum chegou perto de ser tão cultuado como iCarly. É o que possui mais temporadas dentre qualquer um desses shows, com 7 em sua versão original, além de um filme.

Porém Schneider é mais conhecido hoje em dia por suas diversas controvérsias, tendo sido acusado diversas vezes de possuir um comportamento abusivo com seus funcionários, além de uma névoa de desconfiança que paira sobre seu relacionamento com o elenco de menores de seus programas. É especulado (e honestamente facilmente sustentado) que ele basicamente assediava, senão aliciava, os atores, com temáticas que envolvem pés sempre magicamente acabando entrando em todas as suas franquias, mesmo que não faça relevância alguma para o plot. Eu absolutamente recomendo assistir à uma entrevista que a atriz Alexa Nikolas, de Zoey 101, deu em uma live no Instagram, que está na íntegra no YouTube. Ela conta com detalhes o desconforto que era lidar com o produtor, além da atmosfera de rivalidade que ele criava entre o elenco que, novamente, eram apenas crianças.

Apenas em 2018 a Nickelodeon decidiu não renovar o contrato com a produtora de Schneider, com a qual já trabalhava há quase 3 décadas. O produtor inclusive estava planejando um revival da já mencionada Zoey 101, mas felizmente o rompimento de vínculos com o homem resultou no projeto sendo descartado, e já adianto que ele – graças à Deus- não teve envolvimento algum com o novo iCarly. Mas o estrago já estava feito: Amanda Bynes, de O Show da Amanda, é notória por seu terrível estado mental até os dias atuais; Jamie Lynn Spears, de Zoey 101, ficou grávida durante as gravações da última temporada de seu programa, o que resultou no cancelamento do mesmo; e Drake Bell, de Drake & Josh, possui uma lista interminável de infrações penais, sendo a mais nova delas em 2021, por – pasmem – assédio de menores. Será mesmo apenas várias coincidências?

E antes de avançar para a crítica técnica do show em si, precisamos comentar sobre a outra grande controvérsia da franquia: a ausência da personagem Sam Puckett no revival, após sua intérprete Jennette McCurdy ter desistido da carreira de atriz. Não é surpresa para ninguém que Sam era a personagem mais amada de iCarly, já que ela era a alma e a comédia do programa, antes mesmo que a protagonista que dá nome à série. Ela era forte, decidida, independente, leal, destemida... basicamente tudo que os outros protagonistas não eram. Sam era realmente tão popular, que Jennette a reprisou no spin off Sam & Cat (2013-2014), que unia Sam com outra favorita dos fãs: Cat, de Brilhante Victória, interpretada por uma atriz qualquer que vocês nem devem conhecer: Ariana Grande.

Mas nem tudo eram flores para Jennette. Ou melhor dizendo, eram apenas os espinhos. Em uma entrevista recente que a ex-atriz deu em um podcast, ela relata não apenas o seu desgosto por Schneider e sua “ética de trabalho”, mas também que ela “sentia vergonha” e “odiava” iCarly. Ela explica que a carreira de atriz foi imposta a ela por sua mãe abusiva, em uma idade extremamente precoce, o que fez com que Jennette tivesse um péssimo relacionamento com a fama e status de celebridade que ganhou contra sua própria escolha. Ela termina dizendo que só pôde sentir um real alívio com o falecimento de sua mãe em anos recentes, a permitindo desistir da carreira de atriz, para seguir seus sonhos de escrever e dirigir. Jennette ainda brinca que estaria interessada em participar do revival, mas pessoalmente acredito que não vá acontecer tão cedo, tendo em vista todo o seu histórico com a franquia.

Mas você me pergunta: todas essas controvérsias e fofocas dos bastidores fazem com que a série original perca o brilho que tinha quando todos nós a assistimos quando crianças? A resposta é sim, mas também não. É impossível ver Sam na tela e não pensar, mesmo que por um instante, nos abusos familiares que Jennette passava na época. É impossível assistir uma cena que aparenta ser meramente inofensiva, aonde as personagens usam os pés para fazer algo, sem pensar nas atitudes alarmantes de Schneider. Mas ao mesmo tempo, iCarly sempre possuiu um caráter próprio que a fez especial.

Não se enganem, a comédia pastelão escrachada, com piadas de peido e torta na cara é bastante predominante, e claramente voltada ao público infantil. E num grande paradoxo, as crianças dos dias atuais provavelmente seriam alienadas pela tecnologia datada das primeiras temporadas do programa, principalmente quando se fala da internet e das implicações da mesma em nossas vidas reais. Mas ainda assim, a excelência de iCarly se mostra na estética do show.

Seja a cenografia absurda dos sets, que mimicam o caráter artístico de Spencer, ou as relações entre os protagonistas, que sempre estavam em constante mudança, iCarly sabia criar narrativas que se encaixavam perfeitamente com a natureza exagerada de seu mundo. Qualquer fã da série certamente tem um episódio que consegue lembrar de cara justamente por seu teor de bizarrice, e/ou por algum momento importante para os protagonistas: o quarto da Carly sendo renovado, a visita de Michelle Obama, ou os inúmeros beijos que ocorreram entre as personagens com o avanço da trama, por exemplo.

Mas o principal fator para reassistir a série sempre será a nostalgia. É inegável que o iCarly original é basicamente uma relíquia de nosso passado, como um brinquedo de nossa infância que guardamos no fundo de nossos armários, para depois aleatoriamente acharmos quando estivermos procurando pelas caixas de decoração de Natal. Assistir um episódio ou outro é divertido, mas eu duvido que alguém já em seus vinte e poucos veria todas as 7 temporadas em sã consciência. O show felizmente não é incrivelmente datado ou problemático para qualquer um que sabe o que Pânico Na Tv (2003-2012) foi, mas ainda assim não apresenta nada muito substancial, não tem nenhum recheio.

Ainda assim, o episódio final de iCarly segue sendo um dos melhores desfechos dados à uma série em memória recente, aonde todos os personagens ganharam um final próprio, e era possível ver que os roteiristas realmente quiseram criar um arco legítimo para justificar o fim, que ainda assim fazia sentido com o limitado retrato de vida das personagens em uma série que começou apenas para entreter crianças, mas que cresceu com as mesmas até a adolescência.

  • O RETORNO DE ICARLY: A READAPTAÇÃO DA INTERNET

E para a alegria dos millennials e dos zoomers anciãos, iCarly está de volta, quase que uma década depois da série original ter acabado! O conceito de nostalgia como uma estratégia de marketing eficaz para os grupos generacionais mencionados ainda é uma realidade um pouco difícil de engolir, pelo menos para o que vos escreve. Embora não seja exatamente uma completa novidade – a gigante imperialista Disney, por exemplo, fez um revival de As Visões da Raven (2003-2007) de relativo sucesso entre o público infantil, chamado A Casa da Raven (2017-), e também estava trabalhando num projeto similar para sua plataforma de streaming, com a série Lizzie McGuire (2001-2004), embora a protagonista Hilary Duff tenha escolhido o deixar na geladeira por “diferenças criativas” – mas temos aqui, com Carly Shay e cia, um caso sem precedentes.

Embora muitos adultos contemporâneos mantenham um carinho especial por seriados ou programas exibidos durante sua infância e adolescência – Friends (1994-2004) e How I Met Your Mother (2005-2014) imediatamente vêm em mente – nenhum dos demais era feito especialmente para esse público alvo. Então, em termos gerais, iCarly é a primeira série a ter sido feita para esse respectivo público infanto-juvenil a ter crescido junto de seus espectadores, voltando a ser exibida agora em um formato mais maturo. Vocês conhecem aquele meme da Lady Gaga em que ela diz, entre palmas: “Ônibus. Balada. Outra balada. Avião”? Assistir aos primeiros episódios desse revival me fez sentir de forma similar, se você trocar essas palavras por algo como: “Depressão. Sexo. Crise existencial. Drogas”.

“Admirável e apreciado” é provavelmente a melhor forma de descrever o esforço que foi feito para recontextualizar o seriado aos dias atuais. Os personagens não apenas cresceram com os anos, mas também os atores que os dão vida. Jerry Trainor atua como produtor, Miranda Cosgrove como produtora executiva, e Nathan Kress até dirige um dos episódios! É notável o quanto eles queriam realmente fazer parte do projeto, mais do que apenas lucrar com nostalgia. O revival tem muito mais recheio que o original, em diversos momentos fazendo críticas sociais relevantes que seu antecessor sequer pensaria que viriam a existir.

O modelo sitcom é definitivamente defasado e não faz tanto sucesso quanto mesmo no início da década passada, contudo ainda é perfeito para o estilo de comédia que iCarly sempre teve. O humor pastelão foi atenuado, mas não ao ponto de que as peripécias de Spencer não sejam mais relevantes ao show. Foi feito real um processo de refinamento do material base, ao ponto de que os fãs do primeiro iCarly não sintam que estão vendo uma série completamente diferente ou igual à anterior, mas sim uma versão melhorada, onde até mesmo adolescentes atuais, que não sabem o que a marca iCarly representa, não sejam alienados.

Enquanto, sim, você pode assistir aos 13 episódios em ordem aleatória e ainda a entender e se divertir tranquilamente, agora nós temos uma espécie de trama e progressão que envolve o seriado inteiro. As personagens tem claras motivações e personalidades próprias, e obstáculos que enfrentam e superam ao longo da temporada. Assim, todos recebem ao menos um arco próprio, diferente então de sitcoms convencionais, que apenas focam em fazer o público empatizar e apreciar as personalidades apresentadas do início até o fim, sem um grande senso de amadurecimento.

A personagem Carly Shay, em especial, passou de uma coadjuvante em sua própria série (no show original), para o coração e alma do revival. Carly é agora muito mais ativa, perspicaz, humana, e - finalmente - engraçada. Talvez tenha sido a necessidade de Cosgrove em mostrar que suas habilidades como humorista tenham melhorado em um ritmo impressionante; talvez tenha sido a vontade da mesma em se inserir mais na personagem, como é referenciado nas trajetórias de ambas em universidades serem praticamente iguais; ou talvez simplesmente o fato de que a personagem Sam era o núcleo do material base, o que significaria que alguém precisava compensar e preencher o buraco que a mesma deixou. De qualquer forma, isso não tira o mérito de que Carly foi da pior personagem (fora Gibby, mas ele nem conta), para a melhor.

E falando sobre substituir McCurdy, temos que pontuar o quanto Harper (Laci Mosley) é uma ótima adição ao elenco fixo. Por ser uma comparação mais imediata, já que ambas Sam e Harper ocupam o espaço de “melhor amiga da protagonista”, é muito fácil botar uma contra a outra, e chamar a novata de “nova Sam” (e então atacar a atriz no Twitter com insultos racistas, como infelizmente ocorreu), porém Mosley possui um tom, proposta e execução que são o completo oposto de McCurdy. Sim, Harper é uma mulher estadunidense preta com um linguajar um pouco estereotipado para sua demografia, e sim, Sam claramente era uma menina branca codificada como um estereótipo da mulher afro-americana (pobre, agressiva, abusada, gosta de frango frito e melancia), mas suas semelhanças terminam aí.

Harper é não apenas a primeira personagem queer a ser propriamente introduzida ao mundo de iCarly, mas ela demonstra o quanto a representação de pessoas não-brancas melhorou em um ritmo extraordinário desde seus primórdios, quando ainda sob as garras de Schneider. Ela é decidida, comprometida, amigável, carismática, ativista e bastante contemporânea, a própria personificação do “stan twitter”, se esse não fosse tão tóxico. E meus elogios quanto ao tratamento de pessoas de cor se alastram a todos os personagens novos, já que a grande maioria dos mesmos realmente é altamente diversificada. Entre esses, gostaria de destacar a icônica cantora indie asiática Double Dutch (Poppy Liu), e a sagaz filha adotiva negra de Freddie, Millicent (Jaidyn Triplett), essa que inclusive parece ser um tributo da geração Z à Meghan, personagem de Cosgrove em Drake & Josh.

Em tese, o revival de iCarly nos proporciona revisitar uma franquia tão amada por nossa geração, mas sem ter que espremer os olhos para fazer vista grossa à uma infantilização ou falta de consciência que esse projeto poderia ter, se seguisse os exatos passos do antecessor. Até mesmo os sets, que continuam quase que iguais, ainda tem esse tom mais adulto e fácil aos olhos! Bom, talvez isso também seja consequência da mudança na iluminação e cinematografia do show, que agora o faz parecer um produto profissional. Mas ainda assim, eu tenho uma grande crítica a fazer ao show...

  • CONCLUSÃO: A DISSONÂNCIA DOS ICARLY’S

Se lembram do início dessa interminável análise, quando eu citei que tinha medo do que seria feito com o tema central do programa, que se tornou tão comum à basicamente todos os produtos audiovisuais modernos? Esse medo foi de certa forma concretizado, mas não da forma que eu esperava.

A produção, embora às vezes seja bastante ao pé da letra com a representação de problemáticas mileniais (embora o episódio do culto feminista tenha sido incrível), ainda surpreende ao fazer uma ótima sátira das próprias personagens, que exemplificam diferentes facetas da geração em questão, sem em algum segundo sequer parecer terem sido escritas por pessoas com o dobro da idade das pessoas apresentadas na tela.

Sem cerimônias, o seriado começa com Carly pensando em voltar à vida de influenciadora e criadora de conteúdo, considerando resgatar a relíquia que o iCarly se tornou no mundo fictício da série. Porém, após nossa protagonista reanimar seu webshow com sucesso já ao final do primeiro episódio, o iCarly toma posição traseira ao resto da trama, sendo estranhamente subutilizado. Temáticas que envolvem a fama online e a relevância do webshow são exploradas mais profundamente do que apenas os stalkers do material base (que inclusive voltam!), mas ainda assim, vemos muito pouco do programa em si.

Me pergunto se, em um mundo onde qualquer um pode pegar seu celular, gravar um vídeo e postá-lo no YouTube, a essência do que tornava o iCarly tão original se esvaneceu. Mas ao mesmo tempo, como um consumidor assíduo de conteúdo no YouTube e Twitch, eu adoraria ver um foco maior no processo criativo de Carly, de “re-conhecê-la” também através de sua arte, trazendo o seu programa de volta às origens, onde Carly podia se expressar com seu humor, no lugar de fazer com que o show fosse um dispositivo de enredo baseado em conveniência no arco de cada episódio.

De qualquer maneira, acabo essa primeira temporada com um certo calor dentro do coração. Acho que a produção e o elenco estão comprometidos a fazer uma continuação que homenageia, mas também constrói sobre o original. Eu espero que Cosgrove e o restante do elenco usem dessa oportunidade como uma maneira de explorar seu próprio passado como atores mirins, e de como é crescer sob o sucesso de uma grande sensação televisiva.

Eu não sei sobre a próxima temporada, mas posso dizer com tranquilidade que vou optar por essa versão à original, toda vez que quiser retornar à franquia. O programa ainda me dá aquela sensação gostosa de nostalgia, mas pelo menos eu também posso apreciar as piadas adultas que de fato têm algo a dizer. E novamente, é muito mais fácil aos olhos.


Nota: 3.5/5 Lágrimas

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