Más Escolhas, Mau Augúrio

Crítica: O Mundo Sombrio de Sabrina - temporada final (2020)

Julia Alfa


No último dia do ano de 2020, a temporada final de O Mundo Sombrio de Sabrina (Chilling Adventures of Sabrina) foi lançada na Netflix. Depois de uma estreia promissora em 2018, a série conquistou fãs e espectadores fiéis com a bruxinha Spellman de Kiernan Shipka. A qualidade de roteiro, entretanto, passou a deixar a desejar a partir de sua terceira temporada. O último mês de julho trouxe a notícia do cancelamento da série: sua quarta temporada seria a última.


Desenvolvida e roteirizada por Roberto Aguirre-Sacasa, O Mundo Sombrio de Sabrina trouxe desde seu início temáticas místicas e religiosas que despertaram o interesse mesmo de indivíduos que não se cativavam por séries adolescentes. Apesar de ser habituada em uma realidade de dramas juvenis colegiais, a série também possuía a faceta sobrenatural e tramas de roteiro instigantes e sombrios. A partir das temporadas, entretanto, Aguirre-Sacasa parecia perder um pouco da magia que nos envolveu no início de Sabrina.


Roteirista também da série Riverdale, da Warner, Aguirre-Sacasa decidiu que ambas histórias se passariam no mesmo universo, em cidades vizinhas; dessa forma, é possível receber referências de uma das séries enquanto está assistindo à outra. O problema, entretanto, surge quando O Mundo Sombrio de Sabrina aparenta ser envolvido por marcas características de Riverdale - além de possuírem públicos diferentes, a série da Warner recebe constantes críticas sobre seu roteiro, desenvolvimento falho de personagens e hiperssexualização de adolescentes. O Mundo Sombrio de Sabrina fora cancelada antes que Roberto Aguirre-Sacasa conseguisse executar um crossover entre as duas produções, mas isso não foi o bastante para reestabelecer a qualidade na quarta temporada.


É certamente possível colocar a culpa de todas as conveniências de roteiro no cancelamento da série. Fora necessário estabelecer um ponto final com os poucos episódios restantes, e deixar de lado desdobramentos desejados anteriormente que não mais cabem no tempo limite. É um desafio para qualquer contador de histórias, sem dúvidas, mas não faz com a situação se torne impassível de crítica.


Muitas vezes, na temporada final de Sabrina, plots foram inseridos no roteiro sem explicações e deveras desconectados com o restante da linha da série. A personagem de Roz, melhor amiga de Sabrina, descobriu no início da série o dom do “tino”, herdado pelas mulheres de sua família. Na última temporada, é revelado que Roz, na verdade, também é uma bruxa - apesar de, anteriormente, a avó da personagem revelar como bruxas eram suas inimigas; agora, a matriarca reaparece para revelar a natureza do dom a neta, mas nenhuma explicação concreta nos é oferecida. Em outra jogada mal desenvolvida, o pai bruxo de Sabrina, Edward, retorna dos mortos e trata a filha com desprezo e desconsideração - quando, sempre que mencionado em outras temporadas, era posicionado como um pai carinhoso e preocupado com a filha; considerativo, no mínimo. O próprio desenvolvimento do casal Nick e Sabrina é rápido, falho e recheado de fan service.


A quarta temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina também nos oferece muitos fillers e informações que nada acrescentaram. Enquanto, no núcleo principal, os personagens enfrentavam terrores sobrenaturais em todos os episódios - e venciam todos, com um pouco de esforço -, haviam sempre informacionais laterais anti-climáticos e desnecessários. O que é acrescentado na série quando assistimos a três bandas cantarem três músicas inteiras, uma atrás da outra? Pois bem. Em certo momento, Lilith mata seu próprio filho bebê para que Lucifer não pudesse criá-lo; mesmo para uma série de temáticas sombrias, foi uma ação pesada que, aliás, não influenciou na trama de forma maior.


Apenas uma coisa, entretanto, manteve-se bem desenvolvida desde o início dessa temporada, e até da série: o inevitável fim de Sabrina. A bruxinha Spellman sempre lutou com a divisão de mortal e sobrenatural dentro de si; ela sempre amou demais ambos seus amigos mortais e seu coven para decidir abandonar um ou outro. É por isso que, na terceira temporada, Sabrina Spellman divide-se em duas para poder viver o melhor dos dois mundos - atitude essa que, posteriormente, resultaria em seu fim.


Em uma temporada construída com uma espécie de contagem regressiva de terrores sobrenaturais, é possível imaginar que haveria mais desastres e sacrifícios, principalmente em seu final. Quando a decisão de se espelhar retorna a Sabrina em forma de uma catástrofe inevitável, a bruxa assume a culpa. O ato final da série carrega a protagonista em tons tristes e deprimidos, levando-na a passar pela solidão e pelo desprezo. Ao se sacrificar e salvar a vida daqueles que amava, o doloroso fim de Sabrina é o pedaço agridoce que se encaixa no quebra-cabeça de sua história.


Um final trágico em uma temporada sustentada em fan service, aliás, nos proporcionou o melhor episódio da temporada: o sétimo (Capítulo Trinta e Cinco: Sem Fim). Apesar de se distanciar da história central, nesse episódio assistimos à breve viagem de Sabrina Morningstar para outro cosmos. Nele, ela vive numa sitcom, com o gato Salem falante, e suas tias como as atrizes que participaram da série Sabrina, the Teenage Witch, de 1996. Além de possuir várias referências à original sitcom, o episódio também é instigante e bem construído.


Nem todo fan service é de bom grado, entretanto. Para agradar o público e entregar uma espécie de “final feliz” ao casal principal, o personagem de Nicholas mergulha, propositalmente, em um mar de forte correnteza. Assim, ele poderia viver junto com sua namorada, Sabrina, no pós-vida. Em uma temporada repleta de escolhas duvidosas, essa é, sem dúvidas, a mais tosca, alarmante e errada.


Sabrina Spellman é filha de Lucifer Morningstar. Ela é uma bruxa poderosa e determinada, que faria de tudo para aqueles que amava, e que conquistou fiéis fãs nas suas duas ótimas primeiras temporadas. E é assim que vamos lembrar dela, após sua morte (e sua péssima temporada final).


Enterrada no quintal da casa dos Spellman, com solo tão enfeitiçado quanto suas varinhas, ninguém ficará surpreso se, quem sabe, sua mão obstinada desabrochar de seu túmulo.


Nota: 3 / 5 Lágrimas


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