Emily in Paris: Ringarde!

Crítica: Emily em Paris (2020)

Julia Alfa


Cliché é uma palavra de origem francesa designada a indicar as repetições tipográficas que aconteciam na França durante o século XIX. Hoje, espalhada pelo o mundo, o clichê expandiu-se para além do espectro gráfico e nos serve apropriadamente para designar aquilo que nos é "lugar comum". Existe todo um mundo literário, narrativo e cinematográfico baseado na previsibilidade dos fatos; às vezes, nós apenas queremos estourar uma pipoca para assistirmos aos mocinhos ficarem juntos num final feliz. Mas de tudo isso você já sabe. No início do mês de outubro, a Netflix levou o clichê para casa com o lançamento da série Emily in Paris, estrelada por Lily Collins.


Imediatamente criticada pelos franceses por um grosseiro número de estereótipos, Emily in Paris nos conta a história de Emily, uma executiva de uma empresa de marketing que ganha a oportunidade de deixar Chicago trabalhar por um ano na Cidade das Luzes. A premissa da série nos oferece moda, romance e chick-lit, e, por mais que tudo isso coubesse em um filme de duas horas, o conteúdo é dividido em dez capítulos: e esse é um dos problemas a serem apontados.


O roteiro de Emily in Paris conta com um desenvolvimento duvidoso e pouco satisfatório; o início é rápido demais, e a construção de personagens é feita de maneira porca e desleixada. Sabemos tão pouco de Emily, a protagonista! Qual o seu passado; sua história? O que ela gosta de fazer, além de trabalhar compulsivamente? Ao mesmo tempo que a personagem de Lily Collins se assemelha a toda garota de histórias do mesmo gênero, ela não se aproxima ou se distancia de nenhuma. Se você já assistiu RuPaul’s Drag Race, você está familiarizado com drag queens belas e talentosas que sofrem várias críticas por não manifestarem sua personalidade. Pois bem, Emily. Nós não sabemos quem você é, e você está sujeita à eliminação.


Outro problema de roteiro, aliás, é o ex-namorado de Chicago. Ele nos é apresentado no início da série, e ele é tão dolorosamente irrelevante que eu não me recordo de seu nome. Nem Emily, provavelmente, aliás. Depois dele aparecer por cinco minutos no piloto e por mais uns três no episódio seguinte (para o término sem explicações plausíveis ou quaisquer mínimos impactos para a história), ele nunca mais foi mencionado. Se ele não existisse, não faria diferença. Ex-Da-Emily é apenas um peso morto no roteiro da série.


Emily muda-se, então, para Paris e é inserida em um Diabo Veste Prada fajuto. Ninguém gosta dela naquela empresa; todos são carrancudos, rudes e maldosos. Pobre Emily! Ela é apenas uma executiva workaholic que deseja mudar todos os formatos de marketing para um ponto-de-vista-americano-superior e fazer isso enquanto fala apenas je ne parle pas français* na capital da França em uma filial francesa. Eu não estou dizendo que é justo, mas é sabido que... uma empresa dos Estados Unidos nunca aceitaria ter que falar qualquer outra língua senão o velho e simples inglês.


Além de serem pessoas genuinamente intragáveis, os franceses de Emily in Paris também são preguiçosos, folgados e retrógados. Em certo momento, eu já havia me cansado de tantas conotações sexuais gratuitas, e de tanta malícia intrínseca. A única pessoa que se afasta dos estigmas, claramente, é a americana. Estereótipo é um dos sinônimos de clichê, e é o que tanto incomodou a mídia francesa. Os Estados Unidos não conseguem produzir conteúdo de outra maneira, entretanto. Latinos falam muito alto, são pobres e se envolvem com tráfico de drogas. O Brasil só tem mulheres sensuais, samba e futebol. Em Emily in Paris, foi a vez da França.


Apesar de trazer entretenimento leve e divertido, a nova série da Netflix carrega consigo grande potencial de autodestruição. Não cansada de reclamar do roteiro, retomarei mais um aspecto: toda a história é moldada para não ter um final. Isso é muito comum com séries, aliás, e os ganchos de finais de temporada são os responsáveis por grande parte da audiência de séries longas. Shonda Rhimes é famosa por suas seasons finales impactantes! Em Emily in Paris, por outro lado, além do desenvolvimento ser arrastado pelos capítulos, nada chega a uma conclusão. Caso a série seja cancelada - o que é sempre uma possibilidade com a Netflix -, não valerá a pena assistir à primeira temporada. Emily in Paris perde oportunidades narrativas episódio atrás de episódio, e talvez até consiga alcançá-las, mas apenas se a série continuar de pé.


Emily in Paris é um programa com pouca personalidade e erros rudes; alguns dos problemas poderiam ser evitados facilmente, mas a polêmica ruim também instiga espectadores, e esse é sempre um aspecto bom. O conteúdo dos dez episódios vale de entretenimento para algumas horas; talvez você dê algumas risadas, goste de algumas cenas. É um clichê, afinal. Não há muito a ser esperado, e não há muito a ser recebido. Admissível, mas imemorável. Igual. Básico.


Ringarde!


*Je ne parle pas français: eu não sei falar francês.


Nota: 2,5/5 Lágrimas


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