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Crítica: Um Príncipe Em Nova York 2 (2021)

Marco Souza


Após entrar de vez no cenário de filmes indies pro Oscar, dramédias pré-adolescentes e séries meia-boca que só cinéfilos metidos a norte-americanos veem aqui no Brasil, o Prime Video decidiu lançar sua nova aposta: Um Príncipe Em Nova York 2 (2021), novo fruto do processo de franqueamento de filmes nostálgicos dos anos 80/90. E mais uma vez, é claramente um filme feito para que os atores originais e a produtora por trás da empreitada possam ganhar um cheque farto com baixo comprometimento aplicado.


Como eu ainda não havia assistido o clássico original Um Príncipe Em Nova York (1988), fiz o que qualquer outro estudante de Cinema desempregado e desocupado faria: assisti os dois em sequência. E assim que eu entendi o por quê do primeiro filme ser tão icônico para marcar uma geração inteira, soube que não teria como apenas explicar o porquê do segundo filme ser uma aberração capitalista sem primeiro contextualizar a excepcionalidade do primeiro. Por conta disso, irei separar essa crítica em três momentos: o primeiro filme, a sequência, e por último uma comparação geral entre ambas as produções. Então apertem os cintos, pois temos muita estrada pra andar.


1. O ORIGINAL

Um Príncipe Em Nova York, de 1988, certamente não foi o filme que botou o nome “Eddie Murphy” na boca do público (isso já tinha acontecido em 1984, com Um Tira da Pesada), mas olhando para o passado com a perspectiva de 2021, é certamente um dos filmes que vêm a mente quando se pensa na filmografia do ator. O longa é dirigido por John Landis, que você provavelmente vai reconhecer por ter escrito e dirigido Um Lobisomem Americano Em Londres (1981), escrito e produzido Os Sete Suspeitos (1985) e dirigido um pequeno videoclipe de um artista bem desconhecido: Thriller, do Michael Jackson, em 1983.

A narrativa segue príncipe Akeem (Eddie Murphy), herdeiro do trono de Zamunda, um país fictício da África. Descontente com sua vida superprotegida e o casamento arranjado por seus pais com uma noiva que sequer conhece, Akeem decide partir para Nova York com seu melhor amigo Semmi (Arsenio Hall), com a missão secreta de encontrar sua real esposa, e futura rainha de Zamunda. O elenco de suporte também possui lendas da atuação como James Earl Jones, John Amos, Paul Bates, e claro, Samuel L. Jackson, esse último que interpreta um assaltante.


Não seria exagero chamar Um Príncipe Em Nova York de “o primeiro conto de fadas contemporâneo e preto”, levando em conta o ótimo contraste entre a estrutura formulaica que se esperaria de um filme da Disney, com os claros resquícios do movimento da Blaxpoitation, movimento cinematográfico negro da década de 70. Por exemplo, narrativamente falando, Encantada (2007) e Um Príncipe Em Nova York são extremamente parecidos, mas as piadas e momentos risque, que se assemelham muito ao trabalho de um Spike Lee, nos lembra que esse filme é muito mais que apenas uma história completamente politizada e conservadora.

O longa trabalha muito bem com as diferenças de tom entre Akeem, ingênuo e sem experiência em termos do cotidiano da classe média baixa, e a realidade soturna e pessimista dos moradores do bairro Queens. Quando Akeem tenta recriar a icônica cena de Cantando Na Chuva (1952), mas ao invés de água, recebe uma tempestade de gritos de nova iorquinos putos com o barulho de madrugada, podemos perceber que temos mais que apenas um filme Sessão da Tarde ali. O humor do filme é sempre perfeitamente ridículo e campy, mas isso apenas soma aos momentos de romance entre Akeem e Lisa (Shari Headley).


Surpreendentemente, até a questão da xenofobia é bem representada na trama, com claras microagressões que colocam o caráter de um personagem em xeque, no lugar de reforçar que fazer chacota de países africanos e suas questões socioeconômicas é engraçado. Ainda assim, não podemos ignorar a clara ignorância da própria produção, que decora o palácio de Zamunda com papel de parede de plantas tropicais e móveis de animais selvagens em todos os cantos, estereotipando a África como “selvagem” até dentro das casas dos africanos. Também é um bom discutir a hiper-sexualização dos personagens africanos na trama, como o fato do pai de Akeem pensar que tudo é sobre sexo, mas ainda é possível argumentar que isso vem mais das próprias raízes na Blaxpoitation do que de fato um estereótipo africano.


Um Príncipe Em Nova York é um clássico entre o público preto estadunidense por botar em prática um imaginário que era muito pouco representado na época (e honestamente é até hoje): personagens pretos que possuem poder sobre a hierarquia comum, sem o uso de violência. Nenhum personagem entra no típico arquétipo do “favelado” estadunidense, e até os mais abrasivos, como os velhos da barbearia, ainda possuem dimensão para nos trazer alguns dos melhores momentos do filme. Aliás, caso vocês não saibam, dois desses são interpretados pelo próprio Murphy, e outro por Hall. Já sabemos de onde a ideia pra Norbit – Uma Família de Peso (2007) veio.

Mas nem tudo é um conto de fadas, pois com o sucesso e a relevância de um filme, sempre vem algo inevitável consigo: os remakes 30 anos depois.


2. A CÓPIA

Um Príncipe Em Nova York 2 é o filme que todo mundo pediu, mas que ainda assim tínhamos medo de qual realmente seria o preço a se pagar por esse desejo. E exatamente 33 anos após o lançamento do original, descobrimos que, realmente, não valeu a pena.

O longa é dirigido por Craig Brewer, conhecido por dirigir o injustiçadíssimo Dolemite É Meu Nome (2019), que também conta com o protagonismo de Murphy, e o reboot xoxo de Footloose (2011). Então podemos concluir que o real problema de Brewer não é com Murphy, mas sim com remakes e reboots. A sequência também conta com todo o elenco de apoio do primeiro filme (com a exceção de Madge Sinclair, a rainha Aoleon, pois a mesma faleceu em 1995), e com a adição de Jermaine Fowler, Leslie Jones, Tracy Morgan e Wesley Snipes.


É bastante notável o como a narrativa não tem a menor ideia de como introduzir tantos personagens e ainda manter os queridinhos do primeiro filme em relevância, o que nos entrega então arcos B (senão C) de personagens como Lisa, que não somam nada à história total, e personagens como Semmi, que literalmente são completamente colocados de escanteio e só aparecem para fazer piadas fracas.


E como toda franquia após 2015, vocês já devem imaginar a quantidade de lacração desnecessária que esse filme prega. Akeem têm três filhas (uma que é até realmente filha do Eddie Murphy!) que servem apenas para ajudar o novo protagonista homem durante a trama inteira, e depois ao final elas têm seu momento “girl power!”, que não é apenas completamente fabricado do nada, como também é quase insultante de tão óbvio que fora posto ali apenas pra mostrar que o filme está “atualizado aos dias atuais”. Os velhos da barbearia do primeiro filme também têm uma cena incrivelmente mal escrita que só serve pra reforçar que pessoas mais velhas são mais antiquadas quanto às questões sociais (uau), e pra colocar Murphy pra fazer discurso de militante do Twitter.


Mas aí chegamos nos novos personagens do Queens, que demonstram com total certeza que os roteiristas podem estar fazendo o máximo para serem atuais e progressistas, mas ainda são tão velhos e ultrajados como os homens da barbearia. Fowler e Jones são talentosos e já provaram diversas vezes que conseguem fazer ótimos trabalhos, mas francamente, fazer caricaturas de mau gosto de pessoas pretas de classe baixa nos dias atuais é imperdoável. E claro, Morgan, além de interpretar o mesmo estereótipo, também enfia piadinhas xenofóbicas no meio do diálogo, coisa que não havia sido feita no primeiro filme, 33 anos atrás.


A esse ponto eu realmente não sei o que se é preciso falar para que os executivos de Hollywood entendam o que é atualizar uma narrativa para os dias atuais. Se eles só tivessem corrigido a xenofobia implícita do palácio de Zamunda (o que, pra crédito deles, eles fizeram!), e fizessem o exato mesmo filme, eu já estaria contente. Mas no lugar, decidiram fazer uma versão piorada de Diários de Uma Princesa (2001), colocando por exemplo um ato musical de rap desnecessário na cena da introdução da noiva, que era uma das melhores cenas do primeiro longa justamente pela simplicidade do guarda cantando sozinho com seu extraordinário falsete. E agora o que nós temos? Soldados com figurino de Beasts of No Nation (2015) fazendo break dance.


Seria um desserviço chamar esse produto de “sequência”, porque ele não segue com nada do filme original, mas sim só anda pra trás em todos os aspectos. Mas assim como todos os outros remakes mal feitos, pelo menos podemos relaxar ao ir pra cama, sabendo que esse filme vai ser esquecido em menos de um mês.


3. A CONCLUSÃO

Parem de fazer franquias de filmes que já contam uma história perfeitamente completa por si só. Essa é a conclusão. Sério. Com 33 anos e 8 milhões de dólares de diferença entre as produções, nós acabamos com um produto final inferior ao original, mas também sendo um filme incrivelmente medíocre sozinho. Nunca saberemos dizer se foi culpa da falta de Murphy na sala de roteiristas ou de Landis na direção (provavelmente é os dois), mas o que pode se afirmar com total certeza é que o segundo filme não parece possuir nenhum tipo de paixão ou vontade por trás de sua trama genérica. Vai ser apenas mais um longa mediano pra ruim na lista do IMDb de todos os envolvidos – além do farto cheque já mencionado que vai parar direto em suas contas bancárias.


No primeiro filme, o príncipe Akeem batalha os valores antiquados do seu pai, em busca de achar seu verdadeiro amor. Enquanto isso, no segundo, Zamunda literalmente está em perigo de sofrer com uma guerra que provavelmente não venceria, mas claro que a trama vai constantemente fazer referência à problemática do primeiro, falando que elas são paralelos diretos entre si. Falta alma, mas também falta bom senso e o mínimo de um entendimento de como se faz uma sequência e se constrói arcos narrativos a partir de personagens que já foram desenvolvidos na frente dos nossos olhos antes.

E para finalizar: o figurino do primeiro filme ainda consegue ser melhor. 33 anos depois e eles não conseguem sequer repetir o que já fizeram. Pois é.

Nota: 4/5 Lágrimas



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