Delicado e bruto, como a vida

Crítica: Pieces of a Woman (2021)

Gustavo Fernandes


A gestação é um período delicado que afeta os mais diversos âmbitos da vida de quem a enfrenta. A turbulência advinda do processo gestacional é, em suma, imensurável. Do outro lado da moeda, encontra-se outro processo de grande ressonância na vida de quem o enfrenta: o luto. Pieces of a Woman surge com o objetivo de unir as duas extremidades supracitadas e explorar, com delicadeza, o impacto da perda de um ente querido cuja breve presença afetou profundamente o núcleo familiar e seus indivíduos.


Ao longo dos nove meses de gestação, é comum que a família busque se acostumar com a presença do ente que está por vir. É um processo extremamente delicado, assim como a perda, que consiste no processo de acostumar-se com a ausência de quem já esteve ali. O longa dirigido por Kornél Mundruczó busca, já na sequência inicial, desvelar a carga inerente ao processo gestacional. O primeiro ato do filme é dedicado integralmente à imersão no intenso período que antecede o parto, compreendido pelos últimos preparos para o recebimento de uma nova vida. Abruptamente, o filme mergulha o espectador na euforia que é a expectativa pelo nascimento. Após a eletrizante sequência inicial, o público é imerso nas consequências do evento malfadado que foi retratado.


O roteiro, assinado por Kata Wéber, é ousado a ponto de não temer entregar seu verdadeiro clímax já no primeiro ato. Não trata-se de uma mera sequência de abertura eletrizante, mas de todo um primeiro ato fortemente carregado. Posteriormente, o espectador deve lidar com a minuciosa imersão na nova rotina do casal protagonista, agora profundamente abalado pela perda da filha recém-nascida. O maior risco do roteiro de Wéber é justamente sua transição climática pouco usual: em um momento temos o frenesi do período que antecede o parto e logo depois temos o verdadeiro dissecamento emocional dos personagens. O ritmo certamente é afetado pela estrutura, mas não perde organicidade justamente devido à proposta, muito pelo contrário: o primeiro ato é suficientemente potente a ponto de instigar o público a explorar os destroços que restaram daqueles personagens.


A direção de Mundruczó acompanha o ritmo do roteiro de Wéber, imprimindo na tela a sensibilidade requerida pelo texto. Abusando de planos fechados quase nunca estáticos, o diretor evidencia a carga dos intensos processos retratados respectivamente pelas duas fases do filme: o parto e o luto. A câmera transita livremente pelos elementos cenográficos e pelas partes do corpo de Vanessa Kirby (Martha), enfatizando a intimidade de ambos os processos emocionais. Assim como a personagem teve sua vida profundamente modificada pela gravidez, o mesmo ocorreu devido à perda da filha recém-nascida. A direção é extremamente perspicaz ao conduzir ambos os estágios, empregando força e eloquência aos intensos processos vivenciados pela personagem.


A intensidade da jornada pela qual Martha tem de passar é encarnada com esmero por Vanessa Kirby. A atriz é exitosa ao dar vida à personagem, que embarca em um intenso processo de redescoberta de si quando surpreendida pelo luto. O restante do elenco também entrega performances louváveis, com destaque à grande interpretação de Ellen Burstyn, intérprete da controladora mãe de Martha.


Bem-sucedido ao retratar o impacto da gestação e do luto, Pieces of a Woman consagra-se como uma das primeiras grandes obras cinematográficas de 2021. Ostentando o dificilmente alcançado equilíbrio entre sensibilidade e dureza, o primeiro longa de Kornél Mundruczó em língua inglesa é um potente e intimista relato que, alicerçado por um elenco poderoso, entrega uma experiência definitivamente memorável - e possivelmente esperançosa - ao público.


Nota: 5 / 5 Lágrimas


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