A vida continua, mesmo quando a casa cai

Crítica: Três Verões (2019)

Gustavo Fernandes


Regina Casé é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores nomes de atuação em ascensão no audiovisual brasileiro recente. Tendo brilhado como Val no elogiadíssimo Que Horas Ela Volta? (Anna Muylaert, 2014), e dado vida à emblemática Lurdes em Amor de Mãe (Manuela Dias e José Luiz Villamarim, 2019 - 2021), a atriz já pode ser considerada detentora de algumas das mais poderosas performances da década em nossa indústria. A força performática de Casé é um dos mais importantes alicerces de Três Verões, comédia dramática de Sandra Kogut que estreou no Festival de Toronto em 2019 e agora está disponível para exibição no Telecine Play.


O longa acompanha as peripécias de Madá (Regina Casé), governanta de uma casa pertencente a uma família abastada, encabeçada por Edgar (Otávio Muller) e Marta (Gisele Fróes), ao longo de três verões específicos: 2015, 2016 e 2017. A narrativa costurada por Kogut com a co-roteirista Iana Cossoy Paro utiliza cada verão como um ato do filme, desenvolvendo-os de forma linear e orgânica. Logo no início temos contato com o objetivo de vida da carismática protagonista: A construção de seu próprio quiosque. O negócio planejado por Madá é ambicioso e vem do irrefreável entusiasmo empreendedor da personagem, que até pede dinheiro emprestado a Edgar para concretizar seu sonho. O destino da personagem muda de rumo no verão seguinte, quando o patrão é preso e ela se vê responsável pela casa e por Lira, pai idoso de Edgar, interpretado por Rogério Fróes.


Já no primeiro ato, o espectador tem contato direto com os paralelos que vão ditar a narrativa, sempre embasados no contraste existente entre as diferentes classes sociais que dividem o ambiente. Como já era de se esperar, Madá e seus colegas estranham diversos hábitos da família proprietária. O roteiro do filme é certeiro ao ironizar de forma irreverente a disparidade comportamental entre os personagens, sempre através de pinceladas bem-humoradas e agradáveis, sem nunca cair para o marasmo ou mesmo para o didatismo. Na contramão de seus colegas - quase sempre dentro na cozinha da residência -, Madá é responsável por conectar os ambientes e as classes sociais dispostas pela trama. Não à toa, a personagem é nitidamente a que mais almeja ascensão social dentre os empregados - embora a maioria possua consideravelmente menos relevância e tempo de tela.


Apesar de passar boa parte dos dois primeiros atos servindo como fio condutor de comicidade atmosférica, Madá não se limita a ser um acessório narrativo irreverente. Uma das maiores sacadas do roteiro é deixar o processo de aprofundamento dramático da personagem para um momento específico do terceiro ato - repleto de metalinguagem e ironia, já devo avisar. Apesar dos méritos, é justamente nesse momento em que o filme revela sua maior fragilidade: a mornidão com que trata o que passa a ser seu principal eixo dramático. A força impressa à catarse de Madá deveria ser empregada também a sua relação com Lira, que passa a ser um dos principais motores da trama. Esse é o mais nítido equívoco de direção de Kogut, que poderia reforçar ainda mais seu principal arco dramático, mas arrisca por optar não o fazer.


Tendo a energética performance de Regina Casé como um de seus principais alicerces, Três Verões dialoga de forma irreverente com um Brasil destroçado e aparentemente inerte. Exitoso ao buscar uma unidade que comporte o peso dramático de seu contexto e a irreverência de seus personagens, o longa de Sandra Kogut acerta ao instigar o público através do humor e, por meio dele, promover reflexões sobre o lugar ocupado pelo sonho de ascensão social em meio à crise sociopolítica que marca a sociedade tupiniquim - dando até certa faísca de esperança ao espectador, à sua própria maneira.


Nota: 4/5 Lágrimas


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