A mente como encarceramento

Análise: O Farol (2019)

Julia Alfa


Mary Shalley, em 1823, entregou ao mundo o "Prometeu Moderno". A primeiro ver, Victor Frankenstein não apresenta grandes semelhanças com os personagens de Robert Eggers, em seu filme O Farol, lançado em 2019. Entretanto, muitos dos símbolos cuidadosamente entalhados no roteiro nos permitem a associação com Shalley: percebe-se o uso do mesmo mito grego, "Prometeu Acorrentado". A análise do segundo filme do diretor nos transborda de referências míticas, literárias e cinematográficas, essas que permitem que abordemos o filme de diferentes ângulos e aspectos; dentre eles, encontramos o "Prometeu Contemporâneo" de Eggers.


O longa-metragem nos leva a outro espaço-tempo com sua tela em formato 1.19:1, a fotografia preta e branca e a ambientação hostil. Durante a estada na ilha faroleira de Ephrain Winslow e seu veterano, Thomas Wake, recebemos uma filmagem íntima e espelhada das duas personalidades, e somos inseridos numa história úmida, suja e sexual. Retoma-se a pulsão sexual de Sigmound Freud: em sua teoria psicanalítica, as patologias mentais e a linguagem dos sonhos afetam os instintos até que busquem formas de satisfações, quaisquer sejam. Pode-se tomar prova disso na sexualização da sereia de madeira, e principalmente, no delírio dessa mesma figura encarnada.


Quando são deixados na ilha sem resgate, a loucura se intensifica ao longo dos dias nos quais os personagens mergulham em querosene e confusão. Não há noção de tempo; Thomas Wake pergunta, certo momento, se eles estavam lá há apenas algumas semanas, ou se já completaram-se meses. O farol transforma-se em uma prisão mental, e muito nos leva a acreditar de que todo o longa é um fruto da imaginação de Winslow, enclausurado pela culpa de um assassinato, que constrói um mundo de intensa agrura e embate com seu alter ego - descobrimos que o verdadeiro nome de Winslow, tão convenientemente, também é Thomas.


Robert Eggers constrói um filme com tantas camadas e interpretações que se torna impossível decifrá-lo, ou limitá-lo a apenas uma abordagem. Prometeu e Frankenstein ultrapassam uma linha anteriormente imposta, e o mesmo acontece com Winslow. Assim como o primeiro rouba o fogo, e o segundo desafia a mortalidade, Winslow consegue o comando da torre. E quanto a nós: realmente entendemos algo de O Farol, ou estamos apenas cegados à sua luz?

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