A babá, a babaca e a peruca horrenda da Samara Weaving

Crítica : A Babá – Rainha da Morte (2020)

Marco Souza


A Babá – Rainha da Morte (2020) é a sequência do terror/comédia teen da Netflix A Babá (2017), dirigido pelo mesmo projeto de Michael Bay que fez os filmes das Panteras nos anos 2000 (McG), e estrelado por Judah Lewis, Jenna Ortega, Emily Alyn Lind, e claro, a mais nova musa dos filmes de terror, Samara Weaving. O longa se passa dois anos após a história do filme original, e mostra como Cole (Judah Lewis) é tratado como louco por seus pais e pela escola inteira, que obviamente não acreditam que um pré-adolescente virjão teria sido capaz de matar um culto satanista inteiro composto por atores quase na casa dos 30 agindo como se tivessem 18.


Então. Esse filme é uma daquelas experiências difíceis de descrever, tanto que outra pessoa da Equipe Lacrymosa tinha sido encarregada dessa crítica, mas o trauma foi tão grande que teve que ficar pra mim, o único outro indivíduo a ter visto essa bomba. Não me entendam mal, não é um filme horrível, é apenas... desapontante. Principalmente tendo em vista o quanto o primeiro filme foi uma surpresa para todos: um filme de terror teen da Netflix que é na realidade muito engraçado, bem atuado, divertido, e no geral umas das primeiras boas representações da geração Z já vistas nas grandes produções cinematográficas. E de novo, tudo isso vindo da NETLIX. Chocante.

O A Babá original tem seus maiores acertos na forma com a qual a proposta do filme condiz com todas as decisões estilísticas e técnicas tomadas: a edição e fotografia divertida estilo Scott Pilgrim Contra O Mundo (2010) remete à ideia de ser um filme teen, a direção rápida e chamativa de McG dá um ótimo tom, o roteiro escreve todos os personagens de acordo com o tipo de humor e de arquétipos atuais, e todo o elenco do filme é perfeito para os personagens que interpretam. Quem diria que o primeiro bom papel de Bella Thorne nas grandes telas seria fazendo uma líder de torcida com um arco de personagem sobre os peitos dela. Mas o grande destaque do filme sempre será ela, o ícone que carrega o longa inteiro nas costas: Samara Weaving. Não importa quantas vezes eu repetir isso, eu nunca vou achar que fiz o suficiente para demonstrar o quanto essa mulher é maravilhosa. Junto de Três Anúncios Para Um Crime (2017), A Babá ajudou a catapultar a carreira de Weaving, mostrando o quão boa a australiana é com comédia, e dando um gostinho do nível de atuação da mesma, que mais tarde viria a se elevar ainda mais em Ready Or Not – O Ritual (2019) e na série Hollywood (2020).


O correto seria pensar que já que o primeiro filme acertou em tantos pontos, tendo até um final em aberto para uma futura continuação, todos esses acertos continuariam, e todos os elementos negativos seriam aperfeiçoados em ordem a fazer a melhor continuação de todos os tempos, certo? Errado. A Babá – Rainha da Morte é um claro exemplo de uma continuação que só foi chegar ao papel depois que a Netflix chegou na casa de McG e apontou uma arma à sua cabeça, falando que já se foram os tempos que um filme original da Netflix fazia tanto sucesso entre os jovens.


A narrativa é basicamente um dedo do meio para todos os amantes do primeiro longa. Claro, a edição ainda é ótima, as referências à filmes de terror antigos são engraçadinhas e as piadas são no mínimo melhores que um filme de comédia normal, mas em comparação ao primeiro filme, esse é definitivamente a irmã mais feia. Todos os personagens do longa anterior estão completamente iguais ou completamente diferentes (com exceção dos pais, que são ótimos), principalmente Melanie (Emily Alyn Lind), que era uma das minhas favoritas, mas foi transformada numa pessoa totalmente oposta à original, só porque os roteiristas precisavam de um conflito. Os novos personagens introduzidos não adicionam muito à história, fora Phoebe (Jenna Ortega), que ao contrário só subtrai, com uma backstory séria e misteriosa que é talvez a maior piada do filme, mesmo sendo não intencional.


A primeira cena de catarse da tensão do filme é feita de uma forma na qual a única explicação plausível seria que é apenas uma alucinação do protagonista, sendo uma crítica condizente com o primeiro ato do filme, que fala muito sobre saúde mental, mas conforme a história só progride após tal cena, o espectador começa a notar que todas as ações sem consequências ou embasamento no próprio universo do longa são apenas frutos de um roteiro ruim, e não de uma dream sequence. Você começa pensando que vai receber uma farofa gourmet igual o primeiro filme, mas recebe um filme de ação teen qualquer. Não é necessariamente uma ação ou uma comédia ruim, mas é um longa que te engana falando que é uma sequência de uma obra prima de verdade. É tipo Psicopata Americano 2 (2002). Talvez não seja um bom exemplo porque esse é de fato péssimo, mas enfim.


Enquanto foi noticiado antes de sua estreia que Samara Weaving não apareceria na sequência, ela não só aparece, como também aparece a cada 10 minutos em um flashback cômico diferente, e não só isso como também é ponto chave da cena final. E USA UMA PERUCA RÍDICULA. No mundo cinematográfico, nós chamamos isso de “fui-chamada-para-fazer-uma-sequência-de-um-filme-que-eu-fiz-mas-estou-gravando-outra-coisa-então-os-roteiristas-me-enfiaram-aqui-e-ali-pros-fãs-não-sentirem-falta”. É realmente uma pena que Samara não foi capaz de estar mais envolvida com esse projeto (ainda mais depois desse final...), mas desejo tudo de bom para ela, que com certeza vai ser mais que apenas uma sósia da Margot Robbie. E queime aquela WEAVE-ing. Por favor.


No geral, se A Babá – A Rainha da Morte (título que aliás não faz o menor sentido com o plot) nos ensina alguma coisa, esse ensinamento é que deveríamos ter cuidado com o que desejamos, principalmente quando o que queremos é uma sequência feita pela Netflix. Se vocês não se importam muito com o original e apenas o acharam divertido, vale a pena ver. Se vocês querem um filme que mistura terror e comédia de uma forma bem feita, e com uma sequência ainda melhor que o primeiro, assistam A Morte Te Dá Parabéns 1 & 2 (2017/2019) no lugar.


Nota: 2/5 Lágrimas


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