Loki(S)

Crítica: Loki (2021)

Rafael Tunussi


Primeiramente, eu sou um grande marvete, isso precisa ficar claro pro restante da nossa conversa, Loki sempre foi um dos meus personagens favoritos do MCU (Universo Compartilhado da Marvel), então eu criei muitas expectativas para a série lançada pela Disney+. Minhas expectativas foram atingidas? Sim e não.


Loki, irmão adotivo de Thor e vilão do primeiro filme dos Vingadores, é conhecido como o Deus da Mentira, sua morte em Vingadores: Guerra Infinita deixou uma sensação estranha. Loki é um sobrevivente, assim como a série o retrata, ele não liga para conflitos morais e para os outros, ele usa seu egoísmo para sobreviver, enganar e mentir. Ele não tentou isso com Thanos e morreu, foi esquisito, mas aconteceu. A Marvel então deu um jeito de recuperar um personagem que tem um carinho imenso dos fãs e, mostrou um lado do universo que não tínhamos acesso ainda.


A série começa com um acontecimento de Vingadores: Ultimato, quando um erro dos heróis ao voltar no tempo e buscar as joias do infinito permite que uma variante de Loki saia da “linha do tempo sagrada”. A linha do tempo sagrada é explicada inicialmente como uma criação dos Guardiões do Tempo para manter a harmonia do universo e impedir o caos de um multiverso. Dessa forma, Loki é repreendido por ter alterado a linha do tempo sagrada por uma empresa chamada TVA e posteriormente recrutado por ela para ajudar a capturar uma ameaça maior: outra versão dele.


A série mostra o antigo Loki, o personagem de 2012, passando por toda a evolução que ele teve durante todo o progresso do MCU. Em apenas 6 episódios, a série desenvolve a relação dele com Sylvie, a evolução da personagem, diverte o espectador e apresenta uma nova era da Marvel: o multiverso. Olhando como um todo a série foi muito positiva, mas obviamente tiveram pontos positivos e negativos nesse processo.


O primeiro ponto a ser analisado é a série como um todo, para um fã da Marvel e para alguém que desconhece completamente o universo é uma série bem divertida, que vale o seu tempo. Loki é um personagem bem humorado e a série faz jus ao seu protagonista, contando com vários momentos engraçados (Loki jacaré fodase kkkk), não deixa de lado a ação dos filmes de herói e ainda desenvolve bem suas personagens, fazendo o espectador se apegar a eles. Como um todo, funciona muito bem.


Sobre as personagens, todos tem sua importância e seu momento, o que deixa tudo muito mais divertido. Os secundários me surpreenderam muito, uma das coisas que eu mais espero para a segunda temporada (já confirmada) é a história por trás de Mobius, melhor amigo de Loki durante a série. Algumas mortes me deixaram bem triste, o que eu vejo como positivo.


Sobre o protagonista, o arco dele é todo muito agradável, achei interessante ver mais facetas do Deus da Mentira, ver o mundo pelo olhar dele. A cena em que o protagonista fala sobre o amor é muito interessante, a visão do amor como uma adaga é inédita e mostra um pouco de como a personagem pensa. Além da mensagem da série como um todo que é ainda mais interessante, mas já falo sobre isso. Provavelmente você que já viu a série e abriu essa análise quer muito saber minha opinião sobre uma coisa: a relação de Sylvie e Loki


Sim, é muito estranha, ele se apaixonar por si mesmo é esquisito e chega a parecer uma relação meio incestuosa em alguns momentos. Mas faz todo o sentido. Desde o início, Loki é quase um espelho de Narciso, é a personagem mais egoísta do universo, ele nunca confiaria em ninguém o suficiente para se entregar além... dele mesmo. E a inspiração da série ao mito de Narciso fica ainda mais evidente no episódio final.


Resumidamente, Narciso se apaixonou pelo reflexo de si mesmo ao beber água de um lago e quando foi tentar alcançá-lo, caiu no lago e morreu afogado. Finalmente, no último episódio, quando Loki alcança Sylvie para beijá-la, ele se afoga, ele é traído por ela e jogado em uma dimensão completamente desconhecida do multiverso. Mas voltando ao ponto do casal, foi interessante ver um lado de Loki em que ele não estava preocupado com a própria vida, ou consigo mesmo, vê-lo confiando em alguém é algo completamente inédito. Portanto, sim, é um casal extremamente estranho e quase desconfortável de assistir, mas me deixou interessado em saber o que vai resultar a cada uma das personagens.


Para encerrar os pontos positivos, a mensagem da série, que para mim foi uma das mais interessantes até agora das produções da Marvel: o propósito glorioso. Isso é citado diversas vezes do início ao fim, Loki sempre teve o propósito de ser o mais poderoso e de governar um reinado. Todos que trabalham na TVA acreditam fielmente que estão servindo um propósito glorioso de fazer com que as coisas fiquem no eixo, Sylvie tem o propósito glorioso de destruir a TVA que acabou com a sua vida de memórias boas. Todos têm, inicialmente, um propósito glorioso. Mas no percurso, todos descobrem que estavam errados pela trajetória que traçaram. A TVA não era tão gloriosa assim e enganou todos que trabalhavam nela, Loki descobriu que não liga tanto assim para um trono e poder, porque viu que existem coisas mais importantes para ele; e Sylvie cumpriu seu propósito glorioso, mas antes juntamente com Loki, negou a chance de ter tudo o que queria, uma vida normal. Sylvie continuou sedenta por vingança, mas também mudou a sua cabeça durante a trajetória. Todos estavam tão focados no seu propósito glorioso que nenhum deles se permitiu enxergar a sua verdade, alguns personagens se livraram desses estigmas, como Mobius e Loki. Outros continuaram fiéis a ideia inicial como Sylvie e Ravonna (diretora da TVA) e eu estou ansioso para saber como isso vai ser desenvolvido na segunda temporada. E você tem algum propósito glorioso? Ele é tão glorioso assim? Será que não está te impedindo de seguir seu caminho real? Se você o atingir, assim como Sylvie, o que fará depois?


Isso tudo gera uma discussão muito interessante, o que é mais importante: a sua trajetória, tudo que aprendeu no caminho ou o resultado final? Deve ser por isso que os humanos nunca ficam saciados, porque nosso propósito é inatingível ou muda conforme a trajetória passa por caminhos diferentes. Será que realmente precisamos de um propósito glorioso? Ou só a trajetória ser divertida já basta?


Voltando à análise, eu prometi pontos negativos e eles existem, Loki é um dos meus personagens favoritos e eu senti que ele foi usado de escada, a série foi um modo de ligação para a próxima fase do MCU. O multiverso e o vilão principal: Immortus, apresentado no último episódio da série. Para quem lê os quadrinhos, foi um episódio final sensacional, porque conhece o vilão. Mas pra nós que só assistimos a série, fica uma sensação estranha do vilão ser oculto a série toda e ser apresentado no último episódio um cara completamente desconhecido. Não foi um plot que surpreendesse o espectador positivamente. Loki não tem um desfecho que o personagem merece, ainda. Espero que a trajetória dele continue de onde parou e não que os Vingadores ou o Doutor Estranho resolvam os problemas do final do último episódio e o personagem fique completamente de lado.


A série abre um leque de diversas oportunidades para a Marvel, como existe um multiverso com vários Lokis, podem existir vários homens de ferro, hulks, etc. Essa situação pode favorecer e muito a criação de novas histórias com personagens amados, principalmente mudando os atores, já que não vão precisar pagar uma fortuna de cachê para os mesmos atores conhecidos do universo. Portanto, eu entendo a decisão de fazer uma história de ligação em que apresente o novo universo, mas torço profundamente que Loki tenha uma participação maior nessa nova era, porque além de ser um personagem interessante, ele que começou isso tudo e precisa de um final glorioso assim como ele sempre quis. Afinal, precisamos assistir finais com propósitos gloriosos alcançados para continuarmos na esperança de alcançar os nossos.


Nota: 3.5/5 Lágrimas

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