Terror infantil em sua melhor forma

Crítica: Clube do terror (2020)

Gustavo Fernandes


Quem cresceu na segunda metade dos anos 90 ou mesmo no início dos anos 2000 provavelmente conhece pérolas do terror infantil como Clube do Terror (Are You Afraid of the Dark?) ou A Hora do Arrepio (The Nightmare Room). Trata-se de um gênero de difícil manejo, haja vista as restrições com que precisa lidar. Afinal, quando pensamos sobre filmes e séries voltadas ao público infanto-juvenil, dificilmente pensamos em obras que se enquadram no gênero de terror. Assim como as séries supracitadas, a nova minissérie Clube do Terror, produzida para a Nickelodeon, vem para provar que é sim possível traduzir os arrepiantes artifícios do cinema de terror para o público infantil - e fisgar tanto os espectadores mais jovens quanto os fãs mais velhos do gênero.


O revival da bem-sucedida série noventista de mesmo título busca uma atualização do que foi feito pela Nickelodeon há mais de 20 anos. A espinha dorsal da série original é um grupo de adolescentes autointitulado "Sociedade da Meia-Noite" que se reúne ao redor de uma fogueira em uma floresta ao anoitecer para contar histórias de terror. A nova minissérie, que chegou à Nickelodeon brasileira em outubro de 2020, resgata a fórmula da obra original, empregando novos elementos e atualizando sua linguagem para a nova geração espectadora.


A nova história acompanha a jovem Rachel em processo de socialização em sua nova escola. Ao ser convidada para integrar a “Sociedade da Meia-Noite”, a jovem precisa elaborar uma história de terror minimamente arrepiante e contá-la ao grupo. Dessa forma, ela seria efetivada como membro do clube. A garota então utiliza dos próprios pesadelos recorrentes para amedrontar os colegas. A situação assume contornos complexos quando ela percebe que seus pesadelos se tornaram reais após serem compartilhados com a Sociedade.


Um dos maiores acertos da minissérie é a considerável profundidade atribuída a cada personagem. Cada uma das crianças possui personalidade própria e seu momento de destaque. Os arquétipos, nesse caso, são mais facilitadores de desenvolvimento e identificação que limitadores. É divertido e instigante acompanhar a dinâmica entre os personagens, sendo cada um deles detentor de um momento de considerável expressividade. Ao fim do último episódio, é difícil não desejar ver mais histórias dos protagonistas. Vale lembrar, aliás, que a série ganhará uma segunda temporada, mas contando uma nova história independente.


Um dos maiores desafios do “terror infantil” é justamente encontrar o meio-termo ideal entre o terror e a linguagem acessível para crianças. Afinal, uma obra de terror possui como um dos objetivos primordiais o estabelecimento de uma atmosfera minimamente inquietante, a fim de instigar o espectador através do medo, e assim tirá-lo de sua tradicional zona de conforto. Em relação ao terror infantil, as limitações impostas pelas restrições de faixa-etária dificultam o emprego de instrumentos de linguagem, viabilizando excessos como demasiada infantilização ou mesmo o terror desmedido - ambos prejudiciais à obra.


O terror em Clube do Terror é, acima de tudo, atmosférico. O uso musical e as estratégias de direção de câmera e fotografia são elementos imprescindíveis para o reforço da atmosfera inquietante e opressiva que permeia por toda a série. A construção climática dialoga fortemente com o enredo - suficientemente tenso e tenebroso, como a própria série original.


São notórias as dificuldades existentes em encontrar um meio-termo entre produtos direcionados a nichos de mercado audiovisual tão distintos quanto o infanto-juvenil e o consumidor de terror. O revival da já conhecida Clube do Terror vem justamente para mostrar que é sim possível instigar o imaginário infantil sem pesar a mão para a conquista de um público ou de outro. O manejo de gênero da minissérie não poderia ter melhor condução que a atribuída por Dean Israelite, que é exitoso ao elencar a inquietação e o coração pulsante - elementos primordiais para que haja identificação e conquista do público infanto-juvenil. Ao término, Clube do Terror consolida-se como uma deliciosa aventura fantasmagórica que consegue arrepiar, instigar e, acima de tudo, introduzir o horror a possíveis futuros fãs do gênero.


Nota: 4.5 / 5 Lágrimas


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