Quando a síntese de 10 episódios é melhor que a novela de 172

Crítica: As Vinganças de Clara

Gustavo Fernandes


Quando O Outro Lado do Paraíso se tornou um fenômeno absoluto de audiência em meados de novembro de 2017, foi difícil permanecer indiferente à novela. Embora eu não a acompanhasse de início, era comum que eu ficasse deslumbrado com algumas belíssimas cenas das primeiras semanas do folhetim de Walcyr Carrasco. Esse deslumbramento não mudou quando houve a virada de fase da novela: A direção de Mauro Mendonça Filho e André Felipe Binder continuou entregando belíssimas sequências e fazendo uso poderoso da fotografia e dos demais departamentos que compõem uma obra audiovisual. A crítica, no entanto, passou a ficar cada vez mais incomodada com os absurdos do texto de Carrasco. A supressão de boa parte das problemáticas do roteiro é um dos grandes méritos de As Vinganças de Clara, compilado dos 172 capítulos da novela em uma minissérie de 10 episódios.


A trama é inspirada em O Conde de Monte Cristo, romance de Alexandre Dumas que dita diversas narrativas audiovisuais ano após ano. Na TV brasileira, a obra rendeu outros sucessos como Flor do Caribe (2013) e o marco incontestável Avenida Brasil (2012). No interior do Tocantins, Clara (Bianca Bin) se casa com Gael (Sérgio Guizé), que se revela um homem extremamente agressivo. Apesar de fazer diversas denúncias contra o marido, Clara fica frustrada ao sempre vê-lo sair impune das acusações. Acontece que Gael é filho de Sophia (Marieta Severo), uma mulher que, além de ser tão poderosa quanto inescrupulosa, está de olho nas terras de Josafá (Lima Duarte), avô de Clara, devido à grande possibilidade de possuírem uma frutífera mina esmeraldas. Após algum tempo de casamento, Clara engravida, despertando a cobiça de Lívia (Grazi Massafera), que sempre sonhou em ter um filho. A situação de Clara piora quando ela recusa uma proposta de Sophia para que as terras de seu avô fossem exploradas. Pronto: O destino de Clara estava findado. A jovem cai na armadilha de Sophia e Lívia e é internada em um corrupto hospital psiquiátrico isolado numa ilha. A partir de então, Clara passa a tramar sua volta por cima, junto de Beatriz (Nathalia Timberg), uma misteriosa mulher milionária internada ali por sua ambiciosa neta Fabiana (Fernanda Rodrigues). Esse resumo enxuto é referente à trama central da novela. Não vou me dar ao trabalho de discorrer sobre as dezenas de núcleos e personagens secundários da trama. Até porque, a grande maioria não possui relevância ou mesmo algum tempo de tela considerável em As Vinganças de Clara.


Antes de começar a assistir à síntese de dez episódios, fiquei curioso com as possibilidades de recorte. Não conseguia conceber que fosse possível construir uma narrativa coesa resumindo uma trama do tamanho de O Outro Lado do Paraíso sem que soasse como um videoclipe. Minha grande preocupação era que diversos arcos importantes para o desenvolvimento da trama central fossem cortados sem mais nem menos e o espectador que nunca teve contato com a novela original ficasse completamente perdido. Mas me enganei: As Vinganças de Clara acerta ao acompanhar estritamente o ponto de vista da protagonista durante a maior parte da minissérie, usando a grande maioria de personagens e tramas paralelas como meros acessórios narrativos. E, nesse caso, não poderia ter sido mais exitoso. Inclusive, terminei de assistir já desejando que a Globo repetisse a iniciativa com outros títulos e fizesse sínteses de diversas novelas que sempre quis ver ou rever, mas que muito provavelmente terei dificuldade devido ao ostensivo número de capítulos.


Um dos maiores acertos de As Vinganças de Clara é a otimização (involuntária?) de diversas performances de seu elenco. Apesar de contar com a supressão de diversos personagens e de arcos dramáticos imprescindíveis para a trajetória de muitos, a síntese passa a tesoura até em arcos que não devem ter dado muito orgulho a seus intérpretes. Um bom exemplo é Glória Pires, intérprete de Elizabete, que estrela um arco sofrível envolvendo o alcoolismo de sua personagem na telenovela integral. Outra personagem que (felizmente) teve seu núcleo quase completamente suprimido foi Adriana (Julia Dalavia), uma advogada especialista em coaching que hipnotiza Laura (Bella Piero) a fim de desvendar as engrenagens por trás de sua repulsa por sexo.


Ao longo dos dez episódios, boa parte das polêmicas vão sendo suprimidas pela edição. Como o filtro da síntese levou em conta principalmente a relevância para a trama central, a grande maioria dos arcos individuais problemáticos foi descartada. Um bom exemplo é o já citado caso em que Adriana hipnotiza Laura. A hipnose continua, por ser algo imprescindível para a jornada de vingança de Clara, mas sem que tenhamos contato com a profissão de Adriana, nunca citada como advogada, ou mesmo como coach. Quem viu a novela sabe a grosseria que era o merchandising do IBC - Instituto Brasileiro de Coaching na trama: em praticamente todo capítulo havia alguma cena mencionando os feitos milagrosos do coach, e a cena da hipnose é quase como um arremate dessa promoção. Em As Vinganças de Clara, no entanto, Adriana pode ser simplesmente uma psicóloga. Afinal, não sabemos de onde veio, quem é sua família, nem qual sua conexão com a protagonista.


Mas nem tudo são flores. O maior inimigo de As Vinganças de Clara é a própria O Outro Lado do Paraíso. Se, por um lado, a maioria das polêmicas foi descartada na mesa de edição da síntese, por outro, algumas foram mantidas, e ainda incomodam. A abordagem de questões médicas como a eletroconvulsoterapia sofrida por Clara ao ser internada perpetua estereótipos enraizados no senso comum e são um verdadeiro desserviço à psiquiatria. Um equívoco próprio da síntese, no entanto, foi passar a tesoura em alguns embates icônicos entre Clara e Sophia. O atrito entre as duas personagens poderia ter sido ainda mais explorado pela edição da minissérie, já que a maioria dos episódios possui menos de uma hora e poderiam ser um pouquinho maiores.


Quem deve ter ficado feliz com o resultado final da síntese é Mauro Mendonça Filho, que repete aqui a função de diretor artístico em parceria com Walcyr Carrasco. Um dos maiores descontentamentos do diretor em relação à novela foi referente ao arco de Raquel (Erika Januza), que, após ser atropelada e sofrer uma grave lesão na coluna, recuperou os movimentos através de um milagre espiritual operado por Mercedes (Fernanda Montenegro). Mauro é pai de uma filha cadeirante e disse que sabe muito bem que não acontecem milagres do tipo. Essa solução para a personagem é, no mínimo, insensível por parte de Carrasco - que transformo O Outro Lado do Paraíso em um verdadeiro show de pautas sociais superficiais e distorcidas.


Um outro motivo pelo qual vale a pena conferir As Vinganças de Clara é justamente a direção de Mauro Mendonça Filho em parceria com André Felipe Binder. A estética cinematográfica atribuída pelos diretores à novela não poderia ser mais instigante. O visual sombrio e sofisticado empregado pela dupla em Verdades Secretas e reutilizado aqui foi o que mais me instigou a assistir à novela em 2017. Embora diversas sequências belíssimas tenham sido suprimidas em As Vinganças de Clara, muitas outras permaneceram e fazem a minissérie valer à pena devido ao primor técnico. Um dos traços mais característicos de Mauro já em Verdades Secretas é o emprego musical: ao invés de trabalhar com temas individuais para os personagens, o diretor utiliza as faixas de acordo com a emoção cênica. A música original da novela é, inclusive, um trabalho espetacular que merece destaque. Composta por João Paulo Mendonça - também compositor de Verdades Secretas -, a trilha expressa toda carga melodramática da novela. O poderoso uso instrumental de Mendonça remete o espectador ao interior brasileiro e intensifica fortemente a gama de emoções da trama.


Após passar por duas faixas bem distintas de programação (23 e 18 horas), Walcyr Carrasco retornou ao horário nobre três anos após a divisiva Amor à Vida (2014). Tendo tido a oportunidade de trabalhar nesse intervalo com temas mais soturnos em Verdades Secretas (2015) e com sua clássica irreverência interiorana em Êta Mundo Bom! (2016), o autor desandou e entregou um trabalho irregular em O Outro Lado do Paraíso (2017 - 2018). Um atributo em que a novela não pecou em praticamente momento nenhum, no entanto, foi a diversão. O entretenimento proporcionado por uma instigante jornada de vingança cheia de reviravoltas e circunstâncias inusitadas é quase sempre infalível, e nesse caso não foi diferente: em pouco tempo a novela havia se tornado o maior fenômeno da TV brasileira desde Avenida Brasil em 2012. As Vinganças de Clara acerta ao unificar a empolgante jornada de Clara Tavares e suprimir boa parte das polêmicas que a marcaram, além de viabilizar um consumo mais rápido de uma divertida história de vingança cheia de reviravoltas. E quem não adora uma boa história de vingança, né?


Nota: 4/5 Lágrimas


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