Nomadland

Crítica: Nomadland (2020)

Arthur Pereira


Faltam poucos dias para a premiação de maior audiência do mundo, e o grande favorito a levar o prêmio máximo da noite continua sendo o longa-metragem de Chloé Zhao: Nomadland é um projeto intimista, lírico e que parte de conflitos cotidianos sobre nômades modernos, potencializados pela incrível performance de Frances McDormand. O road movie desenvolve certas reflexões sobre a vulnerabilidade dos alicerces do “sonho americano” e o capitalismo selvagem que engole e esquece as pessoas sem piedade.


Porém, mesmo com diversos personagens secundários interessantes e linhas de diálogo bem escritas (apesar do estilo realista quase documental do filme, o roteiro tem papel fundamental na execução), o ponto de partida provocante logo se perde em um longa desinteressante, frágil, lento, de difícil imersão e apenas com lampejos técnicos de genialidade, como: o admirável trabalho da equipe de som; a majestosa fotografia de Joshua James Richards; e a brilhante trilha sonora de Ludovico Einaudi – também creditado pela trilha de The Father, outro filme indicado ao Oscar.


Nomadland é um filme sobre indivíduos, em que todos os personagens estão envoltos em uma crise existencial provocada pela sensação de não pertencimento e falta de alternativas. O tom folclórico, o arco narrativo e a sutileza da construção da personagem e da jornada de Fern são pontos fortes da obra. É interessante acompanhar as contradições da pessoa que perdeu tudo e é orgulhosa demais para aceitar ajuda externa, ao mesmo tempo que busca um novo caminho e se agarra ao passado. Em uma história que representa de forma metafórica o “fracasso da América”, a protagonista aos poucos se permite experimentar até enfrentar ao final um embate dicotômico.


Assim, o longa se sobressai – e provavelmente por tal motivo vem conquistando o apreço generalizado da crítica e do público – ao estabelecer um retrato potente através de um conflito simples e sem julgamentos. É uma narrativa neutra a respeito dos desafios e medos inerentes à condição humana enfrentados pela viajante itinerante enquanto a protagonista se liberta da supervalorização material capitalista. Nenhum tipo de juízo de valor é feito em relação às decisões tomadas pelos personagens que passam pelo caminho de Fern e por ela mesma. Um estilo de vida alternativo à episteme contemporânea é apresentado, mas nem o espectador e nem mesmo a heroína da história precisa atestar que é mais feliz naquela realidade, ou vice-versa.


Entretanto, as menos de duas horas de filme parecem ser muito mais extensas, sendo que há um paradoxo entre diversos planos que parecem cortados rápido demais (talvez até para relacionar com o caminho da vida), dando vontade de ter apreciado por mais tempo as deslumbrantes paisagens, e um ritmo muito lento que a partir de um momento beira a apatia.


Ademais, é interessante ressaltar que mesmo com decisões de vida que estão intrinsecamente ligadas à política, o filme não precisaria entrar em debates diretos sobre o assunto. Entretanto, a maneira como esse retrato autoconsciente de um "capitalismo higienizado” é tratada, conectada e estruturada (em um docficção com atores contracenando com nômades do mundo real) é, no mínimo, estranha. A obra expõe diversas cicatrizes profundas da estrutura social estadunidense, como a necessidade das pessoas se submeterem aos subempregos devido à falta de oportunidades e a inexistência de um sistema universal público de saúde, mas os ignora conscientemente ao evitar qualquer tipo de debate mais profundo sobre os temas. Quando há um lampejo de discussões sobre faturar às custas do sofrimento de outras pessoas (crise imobiliária de 2008), ela é esquecida rapidamente. Assim como no mundo real, a ausência de coesão e possíveis conclusões morais da história nunca seria um problema; entretanto, nem todos os espectadores serão capazes de aceitar o total escapismo de uma história nem tão interessante.


De qualquer forma, é importante destacar a carreira meteórica de Chloé, que nesta temporada venceu praticamente todas premiações de melhor direção, tornando-a favorita disparada nessa categoria do Oscar, além diversos outros prêmios de melhor roteiro adaptado, montagem e melhor filme. Chloé está no início de uma carreira muito prolífica e já trabalha na pós-produção de Eternals (2021), filme do universo cinematográfico da Marvel recheado de estrelas.


Deste modo, Nomadland é uma obra poética e tecnicamente impressionante, mas que não alia bem a narrativa imaginária aos elementos documentais que percorrem toda a produção. Existem dois filmes em um aqui: um muito empático real (com trabalhadores desamparados pelo Estado e com dificuldades tangíveis) e um ficcional inconstante. Assim me surge a dúvida: se o longa evita discursos sociais e políticos, o ideal seria mesmo utilizar pessoas com problemas reais e conceber uma ficção tão intrinsecamente ligada ao gênero documental? A beleza na solidão se mistura com situações revoltantes, mas às vezes não soa autêntico e não conseguiu nem me emocionar nem me indignar. Em meio às idas e vindas, os excelentes depoimentos e a desconstrução de mitos da cultura americana, como os desbravadores do Oeste e o american way of life, talvez sejam o que melhor envelheceu após minha experiência


Nota: 3/5 Lágrimas


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