Belfast - Quando a lista de Shindler encontra Jojo Rabbit e entrega o pior dos dois mundos.

Crítica: Belfast (2021)

Caio Scovino


Belfast (2021) já entrega que terá uma direção problemática ao abrir com uma montagem de vídeos de estoque de pontos turísticos da cidade que dá nome ao filme. Durante sua duração (que parece ter ao menos meia hora a mais do que realmente tem), a câmera, entre outras escolhas estéticas, fazem uma promissora narrativa perder quase todo seu potencial.

O filme tenta rumar por um caminho perigoso de importância e significação histórica com um clima de “sessão da tarde” ao acompanhar a vida do garoto “Buddy” nos períodos de turbulência e conflito religioso na Irlanda do Norte. Tal fragilidade tonal acaba por não permitir que o filme impacte da maneira que a direção tenta (obviamente) comover e entreter.


Junto a uma estrutura episódica de pequenas esquetes, o fluxo do filme se torna vagaroso e tedioso, mesmo com as tentativas de incitar algum êxtase com uso de músicas em extradiegese, com movimentos bruscos e enquadramentos estranhos de câmera, não conseguindo quebrar o marasmo: o que torna o filme ainda menos coeso. A fotografia e direção de arte do longa não ajudam em tal sentimento de estranheza forçada constantemente. Os ângulos são extremamente abertos e a falta de textura e profundidade da imagem criam uma estética clínica esterilizada, que causam ainda mais distanciamento.


Porém, apesar dos muitos problemas, ainda é possível ver um coração em Belfast: é possível perceber que o diretor Kenneth Branagh realmente sente um apego por tal fase de sua vida. A força da autobiografia funciona bem nos personagens dos avós que conseguem passar o clima nostálgico, sofrido e agridoce que deveria reverberar mais no filme em sua totalidade.


Em geral, uma narrativa charmosa e promissora é desperdiçada por uma abordagem forçada e errônea. Belfast perde a chance de ter a potência emocional esperada. Ao apostar em algo “artístico” a direção erra no básico e entrega um filme vazio, mas com alguns momentos de genuinidade.


Para terminar em um tom mais descontraído, ao assistir Belfast me peguei pensando no paralelo entre as cenas cômicas dentro da narrativa sobre um momento tão delicado na história da Irlanda do Norte e a versão do Sambô de Sunday Bloody Sunday, mas no final, só uma das duas obras funciona e infelizmente é a que dura somente três minutos.


Nota: 2,5/5 Lágrimas

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