Festas, carnaval, latinidades e outras maneiras de divertir os gringos

Crítica: In The Heights (2021)

Marco Souza


Em Um Bairro de Nova York (2021) é o musical que nos recepciona de braços abertos assim que adentramos o mundo mágico do HBO Max, que finalmente chegou em terras brasileiras. Mas a real questão é se vamos ou não o abraçar com a mesma força com que o longa acolhe a cultura latina - ou pra ser sincero, apenas a hispânica; e sendo mais honesto ainda, em maioria apenas a porto-riquenha e cubana.


Dirigido pelo maravilhoso Jon M. Chu, que nos deu o prazer de assistir a comédia romântica Podres de Ricos (2018) (e consequentemente o desprazer de esperar por suas sequências), Em Um Bairro de Nova York é a adaptação da peça de teatro homônima, que conta a história de vários sonhadores que moram no bairro de Washington Heights, em Nova York. A peça foi escrita pelo astro da Broadway Lin-Manuel Miranda, embora não aja como roteirista aqui no longa. Mas não temam, Halmiton-fãs, pois aqui ele age como produtor e também faz questão de se inserir como um vendedor de casquinha (equivalente à um vendedor de chup-chup aqui no Brasil) já nos primeiros minutos do filme. E ainda ganha um solo! Nada mais apropriado para uma celebridade com um patrimônio líquido avaliado em cerca de 80 milhões de dólares, a humildade em pessoa!


Como vocês já devem ter percebido, pode-se dizer que não sou muito fã de Lin-Manuel Miranda, então caso vocês sejam adoradores fiéis do musical Hamilton, escrito pelo homem em questão, por favor levem tudo que eu falar com cautela, tendo essa informação já em mente. Mas já tendo anunciado isso, posso continuar a dizer que Em Um Bairro exala a essência hiperativa nauseante de Miranda tão quanto como A Festa de Formatura (2020) exala o fetiche de Ryan Murphy por hiperfeminilidade e atrizes velhas icônicas. Comparação essa que ainda trarei muito, tendo em vista o fácil paralelo criado entre Murphy e Miranda, e suas personas não tão bem cultuadas entre parte dos fãs dos veículos onde respectivamente trabalham. E – spoiler - porque eu também dei a mesma nota para ambos os musicais.


Mas é injusto da minha parte falar apenas do envolvimento de Miranda quando eu ainda posso elogiar muito o trabalho de Chu nesse filme. Aliados à direção impecável de Chu, a edição com rico repertório de ângulos e a direção de arte que reconstrói um bairro completo transmitem uma atmosfera que eleva o produto à mais do que apenas uma peça vista perante as lentes de uma câmera, realmente demonstrando que pertence nas grandes telas. Jon M. Chu mostra aqui que um orçamento maior que qualquer um de seus projetos passados caiu nas mãos certas, e que ele está mais do que disposto em gastar bastante em um jogo de câmera, composição de cena e coreografia bem executados, que elevam o longa à um novo patamar.


Mas como já mencionado antes, possuímos um grande problema - ao menos nos meus olhos: a presença de Lin-Manuel Miranda. Sim, ele não escreveu o roteiro dessa vez, mas vale lembrar que foi sua colaboradora Quiara Alegría Hudes, quem co-escreveu a peça original, que adaptou o roteiro do longa. Isso basicamente confirma que a essência de Miranda passaria para as telas de qualquer forma, mesmo com a majestosa presença de Chu. Personagens homens fazem raps pretenciosos intermináveis e as mulheres gritam mais alto que o próprio ego de Miranda, assim como em Hamilton. A trama tem um teor progressista e que visa a representatividade de minorias em primeiro lugar, novamente, assim como em Hamilton. Mas essa ideia central de uma presença artística própria de Miranda vem dessa própria comparação, já que a peça Em Um Bairro de Nova York estreou quase uma década antes da peça Hamilton, mesmo que o último seja visto como o produto base a que se compara outros, por sua maior popularidade.


Eu não ousaria em momento algum dizer que Em Um Bairro faz para a comunidade latina o que A Festa de Formatura fez para a comunidade queer, especialmente porque aqui não temos James Corden fazendo desserviço a cada minuto. É honrável ver a disposição de Miranda em colocar um elenco basicamente completamente hispânico em foco, ainda mais em uma história inerentemente latino-americana, que abraça identidades afro-latinas e coloca em xeque toda a dificuldade que imigrantes experienciam ao se regularizar nos Estados Unidos.


Ainda assim, não é difícil notar quem são os indivíduos que estão de fato por trás do projeto. No mesmo momento em que o roteiro menciona o genocídio do povo taíno do Caribe e as ditaduras latino-americanas, ele esquece de completar a crítica social, sem mencionar que foram os estadunidenses – sim, esses que produziram o filme – que bancaram e incentivaram os golpes militares dos países latinos. E é no mínimo estranha a escolha de que a iluminação do longa seja toda em tons de amarelo e vermelho, escurecendo e dando uma tonalidade “bronzeada” à todos os atores, até os que fenotipicamente seriam considerados como brancos aqui no Brasil, reforçando a ideia que estadunidenses têm de que latinos são “marroms”, sendo assim uma raça e não uma etnia.


Porém desviando a conversa para um lado mais positivo, mas ainda falando dos atores, tenho que reforçar meu contentamento com o trabalho de Leslie Grace. Os kpoppers de plantão já a conheciam da colaboração que a mesma fez em 2018 com o grupo Super Junior (Lo Siento é uma das melhores músicas do kpop, ouçam), mas aqui vemos que Grace não é apenas uma ótima cantora, como também uma promissora atriz. A trama de sua personagem Nina é facilmente a mais bem elaborada e desenvolvida do roteiro, sendo basicamente a chave central dos dois primeiros atos – e motivo pelo qual o terceiro é tão fraco. Quando Grace sai de cena quase 20 minutos antes da conclusão do filme, nos deixando com os arcos não tão cativantes de Usnavi (Anthony Ramos) e Vanessa (Melissa Barrera), notamos o quanto a sua presença empurrava o filme adiante. Sem contar que Benny (Corey Hawkins) mal tinha uma história própria além de ser namorado de Nina, então agora com a sua despedida que ele realmente não tem tempo de tela.


O que também contribui para o fato do terceiro ato ser tão inferior aos passados, é o quanto eles são superiores em todos os aspectos. Admito que a sequência inicial me cansou um pouco, demonstrando algumas das críticas que teria durante o filme: sincronização da música com as atuações feita de uma maneira não muito convincente, letras muito rápidas e difíceis de entender sem legendas (e às vezes não tão bem escritas), sotaques latinos que vão e vem dependendo da personagem, computação gráfica que não convence, etc. Mas ainda assim, os dois primeiros atos nos deram muitos momentos divertidos: a origem do bizarro nome Usnavi sendo incrivelmente de uma mentalidade latina, a maior parte das cenas musicais com Vanessa e Nina (incluindo a loteria na piscina pública), e a realmente imaculada performance pós vida da Abuela Claudia (Olga Merediz), que conta a história de vida da personagem através de vagões e estações de metrô, esses que são de grande significância à estética nova-iorquina.


Eu facilmente diria que Em Um Bairro brilha muito mais que A Festa de Formatura, e é muito justificável de ser assistido, diferente do segundo. Porém argumentaria que ambos falham em me trazer uma experiência memorável e que me faça pensar em um revê-los. Enquanto A Festa de Formatura é uma experiência linearmente fraca e decepcionante, com breves momentos de real entretenimento, Em Um Bairro começa relativamente forte, com performances de larga escala impressionantes, mas que lentamente definha e revela que não tem muito a adicionar, sendo as performances musicais finais nada perto das outras, o que é chocante já que uma delas é literalmente um casal dançando nas paredes externas de um prédio.


Em outras palavras, A Festa de Formatura já nasceu morto, e Em Um Bairro de Nova York tinha muito potencial, mas utilizou o mesmo em apenas algumas categorias. Jon M. Chu e sua produção em geral são certamente competentes e merecedoras de atenção, mesmo aliados à um roteiro que foca muito em arcos estereotípicos e não faz jus à um elenco que tinha capacidade de entregar mais. Mas pelo menos as musicas aqui são divertidas! Já para A Festa de Formatura... mais vale ler a minha crítica mesmo, garanto que não vai fazer falta.


Nota: 2.5/5 Lágrimas

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