Vira-Latas Do Caribe: A Lenda do Feminismo de Época

Crítica: Jungle Cruise (2021)

Marco Souza


Eu nunca imaginei me tornar um perito em blockbusters de aventura, aonde personagens privilegiados por ter seguro de vida têm de explorar os lugares mais inóspitos do mundo (se lê terceiro mundo), seguindo a fórmula que Indiana Jones inventou, popularizou e desgastou em apenas uma década, se descartarmos o quarto filme da franquia, como todos o fazem. Mas com minhas críticas de Dora e A Cidade Perdida (2019) e agora de Jungle Cruise (2021), acho que posso referir a mim mesmo como um connoisseur desse gênero que absolutamente mais ninguém da Equipe Lacrymosa™ se dispõe a escrever sobre. Quem é mais corajoso: eu ou a Emily Blunt de calças? O que nos resta é usar desta crítica para descobrir.


Jungle Cruise (que por algum milagre dos deuses capitalistas ficou sem subtítulo em português), é a mais nova tentativa da corporação Disney de ganhar dinheiro encima dela mesma. O longa torna uma das atrações clássicas dos parques temáticos em filme, como já visto incansavelmente na franquia Piratas do Caribe, e naquele horroroso Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível (2015), que fez o corpo de Walt Disney se revirar na câmara de criogenia. Agora se essa realmente é uma tentativa de criar uma nova franquia similar à Piratas, ou um teste das águas para a quinta sequência do já mencionado Indiana Jones, que inclusive já chega ano que vem, apenas o tempo dirá.


De imediato, o longa causa uma certa confusão. Enquanto vários filmes que trabalham com um caráter de aventura ou fantasia optam por uma introdução ao seu universo de forma lúdica, utilizando livros, rascunhos ou pinturas rupestres, para citar alguns, Jungle Cruise toma uma decisão inesperada. A sequência inicial é meramente um corte entres várias cenas live action - de alto teor de produção - que possuem nenhuma ligação estética entre si, com uma narração qualquer jogada por cima que faz um trabalho medíocre em explicar a mitologia da narrativa. Narração essa que aliás some do filme tão rápido quanto aparece.


É apenas com o desenrolar da trama que entendemos a pertinência de cenas de custo tão caro terem sido aparentemente jogadas de qualquer jeito na introdução, mas tal descoberta nos leva diretamente ao problema técnico principal do filme: a edição. Enquanto o espectador americano comum certamente não estranharia o fato de Dwayne “The Rock” Johnson não parecer etnicamente brasileiro (ele é polinésio) e dele constantemente falar espanhol por nenhuma razão aparente, nós brasileiros acabamos não nos surpreendemos com a “plot twist” do filme, por conta desses pequenos detalhes que não intencionalmente a entregam.


Eu boto o termo entre aspas justamente por conta da forma em que o filme é editado, não colocando indício algum de que tal twist iria acontecer, alienando assim a audiência principal do filme. E mais, ainda tendo que utilizar do recurso do “flashback altamente explicativo no meio do filme” para explicar tudo que acabara de decorrer, e inclusive atando pontos soltos do roteiro que não tinham sido bem explicados na já mencionada introdução. Você quer mesmo me dizer que uma produção de 200 milhões de dólares não se deu ao trabalho de gravar uma cena sequer de um figurante “brasileiro” (mais sobre isso no próximo parágrafo) questionando o português terrível do The Rock, principalmente para alguém que ninguém sabe da origem? Já diria a grande Divina De Campo: “I don’t think”.


E a tal “brasilidade” do longa, você me pergunta. Afinal, o filme se passa no Brasil, certo? Sim, mas foi gravado inteiramente nos EUA, com um elenco sem nenhum brasileiro. Mais precisamente, gravaram na frente de uma tela verde, que novamente deu espaço à uma edição decadente, com um CGI criminalmente preguiçoso para um filme que terminou de ser gravado em 2018. A “brasilidade” do filme é exposta então apenas na trambicagem do negócio de The Rock, e nos nomes dos lugares, que nenhuma personagem pronuncia corretamente. A Porto Velho do filme, aliás, mais parece um set de vilarejo descartado da franquia Piratas Do Caribe, com um design de produção que focou na estética de 1910 – de forma medíocre - mas não na nossa versão histórica.


O que nos leva ao roteiro como um todo. Para um filme que quer botar uma mulher transgressora e progressista como protagonista, um homem não branco como interesse amoroso e um homem gay como alívio cômico (que não pode se referir a si mesmo como tal porque a classificação indicativa provavelmente aumentaria), o filme ainda segue a tendência xenofóbica dos filmes de aventura estadunidense. Não se dão ao mínimo de respeito à cultura local, e basicamente declaram de peito aberto que não ligam em fazer uma pesquisa histórica e cultural sobre o Brasil. É escorpião-imperador ali, cidade-casa-da-árvore indígena ali, português e espanhol sendo usados como sinônimos do outro lado... mas não temam, porque nossos heróis vão derrotar a Alemanha nazista pela enésima vez!


É deplorável o fato de que uma produção que diz buscar com que o espectador seja submergido em uma cultura específica saia do caminho para completamente ignorar a mesma. Jungle Cruise possui longos diálogos inteiramente em inglês, alemão, espanhol e em uma língua indígena que eu assumo que sequer existe, mas português é reduzido à pequenas falas individuais aqui e ali. O longa sequer menciona qualquer outro país hispânico que possui parte da Amazônia, mesmo que siga uma trama que foca nos conquistadores espanhóis, já que passa a maior parte do texto focado em como a personagem da Emily Blunt pode subverter os valores de uma sociedade que aparentemente não tinha auto crítica, ao mesmo tempo que seu irmão age como o pomposo Félix vendendo hot dog na rua em Amor à Vida (2013).


Jungle Cruise é, então, a nossa mais nova inclusão ao “feminismo de época”, termo criado por mim para definir outras obras históricas lacradoras como Enola Holmes (2020) e Adoráveis Mulheres (2019). Mas ela ainda consegue ser a maior agressora entre as demais, por entregar críticas completamente vazias e não originais para a atualidade, atreladas à um “humor familiar” – pra não dizer infantilizado – que têm a mesma eficácia que cenas 3D em plataformas de streaming: nenhuma.


Honestamente – e eu nunca pensei que diria isso – assistam ao filme da Dora Aventureira antes que Jungle Cruise. As crianças vão adorar, você vai poder mexer no celular o tempo todo mas ainda rir das piadas destinadas aos pais, e de quebra você ainda nem precisa passar raiva com lacração moderna em um Brasil histórico que qualquer novela da Globo faz melhor. Bora fechar?


Nota: 2/5 Lágrimas

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