Um turbilhão corajoso e revigorante

Crítica: Monster Hunter (2020)

Gustavo Fernandes


Ao longo de sua já extensa carreira, Paul W. S. Anderson fortificou seus traços pessoais e se reinventou de diversas formas em diversos momentos. Um dos maiores termômetros da filmografia do diretor é a bem-sucedida franquia Resident Evil, cuja direção foi assumida por ele em quatro filmes. Ao decorrer dos títulos, é interessante como Anderson intencionalmente institui e descarta o que é ou não conveniente para seu principal propósito enquanto diretor: a imersão do espectador no frenesi do cinema de ação enquanto janela de gameplay. Em Monster Hunter não é diferente: é nítida a intenção do diretor de construir sua narrativa através da imposição de diversos mecanismos de puro desfrute sensorial, tendo a dinâmica de videogames como mais forte inspiração.


A princípio, o jogo cinematográfico proposto por Anderson soa tão caótico quanto simplista, e é por meio dessa dualidade característica que Monster Hunter flui e cativa o espectador. A busca incessante pela sobrevivência num mundo desconhecido guia a jornada dos personagens - a grande maioria sem tramas pessoais relevantes, mas sempre servindo ao propósito principal do filme. Nesse sentido, a jornada proposta pela narrativa dispensa quaisquer elementos que possam prejudicar a condução do filme enquanto uma frenética série de estímulos subsequentes, e isso reflete a concepção visual de urgência que permeia por toda a fita.


A carência emocional de Monster Hunter é a sina do jogo proposto por Anderson, mas não incomoda a ponto de comprometer a experiência do público. Se em Resident Evil: O Capítulo Final (2017) o diretor teve observância para manter uma proposta similar e ainda assim atribuir alguma força emocional a seus personagens, em Monster Hunter essa não foi uma grande preocupação. Aqui, o compadecimento por perdas não é um risco, pois a perda não configura risco algum. A empatia que somos induzidos a sentir pelos personagens é limitada, mas suficiente para conduzir e estimular o sensorial do público. Até mesmo as performances dos atores refletem essa urgência atmosférica sagaz, principalmente a protagonista de Milla Jovovich.


Vibrante e energético, o novo longa-metragem de Paul W. S. Anderson não é emblemático a ponto de ser completamente inesquecível, mas isso não compromete a satisfação do espectador ao ser imerso no frenético turbilhão de gatilhos do diretor. A experiência proporcionada pela breve jornada que o filme retrata não possui alicerce em delicadeza ou minúcia, mas em completa entrega ao que há de mais deslumbrante no cinema de ação: a indução escapista.


Nota: 4/5 Lágrimas


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