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Atualizado: há 4 dias

Crítica: Pequenos Incêndios por Toda Parte

Julia Alfa


Há pouco tempo, o Prime Vídeo lançou a minissérie Pequenos Incêndios por Toda Parte (em inglês, Little Fires Everywhere). A história vem de um livro de mesmo nome escrito por Celest Ng, de 2017 - o qual eu tive a chance de ler um ano antes do lançamento da série, e fiquei muito animada quando descobri que seria adaptado para as telas.


A minissérie apareceu com uma fotografia maravilhosa, devidamente colorida. A abertura é impecável, e eu não consegui adiá-la em nenhum episódio. A ideia de fogos e incêndios fora muito bem abraçada pelos criadores da série, que utilizaram deles até mesmo em imagens promocionais.


É uma história que te cativa desde o primeiro momento, quando vemos a belíssima e enorme casa dos Richardson em chamas. A única pista que recebemos do motivo, entretanto, é a suspeita sorrateira de alguns personagens que a responsável pelo incêndio era a filha mais nova do casal, Izzy Richardson. E então, retornamos alguns meses para que a história nos conte como é que chegamos àquele ponto.


Nessa adaptação, eu fiquei muitíssimo feliz de encontrar atores que encaixaram tão bem em seus personagens. Temos nossa legalmente loira, Reese Witherspoon como Elena Richardson, e para confrontar sua personagem, temos a talentosíssima Mia Warren interpretada por Kerry Washington. O que também me agradou muito foi descobrir que todos os adolescentes da série são, realmente, adolescentes! Isso mesmo, nenhum adulto de 26 anos interpretando um adolescente de Ensino Médio por aqui.


Pequenos Incêndios por Toda Parte é uma história complexa que foca muito em maternidade e questões raciais. No livro, Mia Warren não é descrita como uma mulher negra, nem como uma mulher branca. A escolha de Kerry Washington para o papel encaixou perfeitamente; toda sua história foi moldada para ser um percurso que trouxesse ainda mais questões raciais para série, e que deixasse o conflito com a personagem Elena Richardson ainda mais aparente. Por mais que Elena diga que não, nós conseguimos perceber diversos traços racistas em suas falas e atitudes. Ao longo da história, percebemos o quanto esses traços pessoais de Elena afeta os próprios filhos, e como eles se distanciam dessa visão após conhecer Mia Warren e sua filha, além de outros acontecimentos.


A construção da personalidade da filha mais nova, Izzy, foi feita com ainda mais cuidado na série. Ela ainda é a mesma Izzy dos livros, mas agora sabemos muito mais sobre ela; e ela é interessante para caramba! Sua personalidade se assemelha muito mais com a de Mia Warren, o que pode deixar as coisas complicadas com sua mãe...


De certa forma, a minissérie conseguiu ser completamente fiel ao livro, mesmo fazendo algumas modificações. Posso dizer, como uma leitora, que a essência da história permaneceu e, ouso dizer, melhorou. Fiquei apaixonada por cada uma das pequenas mudanças. Dou esse crédito à roteirista.


É uma história que te instiga e que questiona seus ideais e sua moral a cada episódio. Além do elenco central, temos a história de Bebe Chow, uma imigrante chinesa que teve que colocar sua filhinha à adoção por viver em situações precárias. Quando primeiro li o livro, não imaginei que ficaria tão indecisa sobre a adoção da bebê chinesa - mas a autora fez um papel excelente de cutucar nossas mentes com questões raciais e culturais. A mãe biológica chinesa ou a mãe adotiva americana: você chegou a escolher um lado? Porque, até hoje, não consigo dizer com certeza. É uma situação que foge completamente do preto e branco, certo e errado. O caso da bebê M. nos faz pensar...


Espero que, caso não tenha assistido ainda, o pouco que eu falei sobre a série tenha te deixado interessado para buscar por mais. A história não vai se revelar imediatamente; a cada episódio, você descobrirá uma nova camada de algum dos personagens. É cativante, feliz e cruel, porque é uma história realista, e a vida também é assim.


Bom, em certo momento, Mia conta para Izzy sobre o dia que presenciou um incêndio florestal. É algo gigantesco e brutal, e parece ser o fim, quando o fogo se apaga e você vê todas aquelas árvores chamuscadas. Mas é aí que acontece: elas nascem de novo; elas retornam das cinzas como um recomeço. Cada um dos personagens dessa história é um incêndio ambulante. Tudo que desejam é que queime logo e pare de arder, para que eles possam se erguer novamente.

NOTA: 5/5 Lágrimas


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