Spring Breakers: do mundo Disney à putaria

Análise: Spring Breakers (2012)

Lucas Raposo


Quando o fajuto sonho americano encontra com a desiludida realidade, fingimos que está tudo bem, pois assim fica mais bonito. Sob uma coloração onírica, com luzes que refletem como o sol sobre as águas do mar, jovens deleitam o hedonismo em Spring Breakers (2012), desprendendo-as das amarras que autorregulam nossa sociedade, vivendo uma experiência de videogame. Neste filme de Harmony Korine, as obsessões neoliberais vêm à tona através da sexualização, drogas e dinheiro fácil, assumindo o papel dissociativo daquilo que é a vida real.


Com um elenco perfeito, protagonizado pelas pupilas do pop, as personagens Faith (Selena Gomes, na época, atriz da Disney), Candy (Vanessa Hudgens, estrela de High School Musical), a loira Brit (Ashley Benson, atriz em Pretty Little Liars) e Cotty (Rachel Korine, cônjuge do próprio diretor); são garotas fugindo da mesmice universitária afim de peregrinarem na praia dos prazeres, do famigerado evento Spring Break. Do mundo mágico de Walt Disney às bebidas, sexo e drogas, a escolha das atrizes, antes mesmo de tomarmos o filme executado como a obra em si, evidenciam o caráter disruptivo da maturidade idealizada pelo american way of life. Preparam as crianças para um mundo engomado e fictício, que as levam ao desejo de buscarem uma vida desregrada, de ficção.


Se a realidade, então, é algo confuso de decifrar perante a nossa esquizofrenização social, que abracemos nossas fantasias e finjamos que todo desejo é possível. Por isso, que em determinados momentos do filme, a trama incorpora (na talvez, melhor franquia de jogos) Grand Theft Auto. Com arsenais de armas, self-service de drogas, vadias e o filme Scarface (1983) assistido repetidas vezes, conhecemos o personagem criminoso Alien (James Franco), que acredita ser de outro mundo. Essa proposição evidencia a força motriz de toda hipocrisia mostrada em Spring Breakers, considerando que Alien trata-se do mais mundano de todos ali, encarnando toda a essência fragilizada e obtusa do neoliberalismo. É o existencialista “americano” branco, que acredita que suas experiências o tornam negro, conforme pode-se tomar de base o ensaio The White Negro: Superficial Reflections on the Hipster (1957), de Norman Mailer. Por isso, que de contrapartida à perspectiva de Alien, há o gangster afro-americano Archie (interpretado pelo verdadeiramente subversivo Gucci Mane), trabalhando o conflito cultural que fatura a indústria da música, do audiovisual e da moda.


Abordando a geração YouTube, o filme se assume como um vídeo clipe em diversos momentos; artificio trabalhado no cinema há tempos, tendo como marco Easy Rider (1969). Agora, ao som das trilha-sonoras eletrônicas, sendo a maior parte delas do notório produtor e DJ Skrillex, imergem musicalmente a obra dentro desta esfera capitalista, uma vez que sua experiência sensorial gera um coletivismo pensado no imediatismo efêmero da sociedade do consumo. No entanto, a maior expressividade musical vem do legado Britney Spears, cravejado no nome da personagem Brit. A princesa do pop é incorporada dentro de sua essência meiga, sensual, polêmica e rebelde, como símbolo da instigante juventude pós-milenar, transbordada na cena mais icônica do filme, onde Candy, Brit e Cotty dançam sob o pôr-do-sol ao som de Everytime, no piano de Alien. Um balé onírico que casa violência com doçura, nos deixa leve e com gosto de jujuba na boca, banhados nos desejos fúteis e inalcançáveis do marketing.


Através do uso imagético sensitivo, de uma montagem que alterna entre a sua realidade e ficção, realizam uma explosão de cores doces, pautada na fabricante de tintas Day-Glo Color Corp. para que encontrassem os tons mais saborosos possíveis. Portanto, é embasado que, tomando como base a nomenclatura das personagens, ao fim só resta Candy (doce, em inglês) e Brit (referência ao pop), preservando assim, em personificações, a estética do filme. Ao longo do percurso, Faith (fé, em inglês) e Cotty (gíria para “vadia”) desistem da jornada, pois quando tanto a fé quanto a vadiagem dissolvem, o que resta é apenas a obra por si só, tornando Spring Breakers neste singular retrato da deformidade sociocultural dentro do infame e decadente american dream.

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