Japão Submerso - Se tudo afundasse mais rápido

Atualizado: Ago 1

Crítica: 2020 – Japão Submerso

Caio Scovino


Mais uma vez a Netflix aposta na produção original de um anime. Como já visto nas tentativas anteriores de produção e distribuição bem sucedidas, a plataforma cada vez mais procura fisgar o amplo público fiel das produções nipônicas.


2020 – Japão Submerso é a adaptação de uma visual novel de mesmo título da década de 70, que tem por mérito humanizar e trazer questões globalistas e identitárias à um gênero predominantemente isento de tais discussões, as obras de desastre. Seguindo a fórmula de tantas outras obras como Independence Day (1996), O Dia Depois de Amanhã (2004) e 2012 (2009), a narrativa segue uma família que busca sobreviver à um cataclismo sísmico que faz com que todo o subcontinente do leste e sudoeste asiático descenda aos mares.

Ao se estabelecer, o anime toma uma narrativa muito cruel com as relações criadas: a sobreposição do afeto e do otimismo é bruscamente oposta ao descarte de personagens. O que no início se vê doloroso e, de certo modo, real, passa ao longo da narrativa a perder o peso, se tornando apenas mais uma perda dentre muitas. Talvez a maior virtude da série seja sua abertura, a ternura de uma doce composição junto às imagens de um cotidiano feliz complementa de forma cruel a realidade catastrófica dos acontecimentos, adicionando beleza ímpar para a mesma. Mas de sutileza, a série se prende somente à sua abertura.

Ao decorrer dos episódios, personagens surgem e somem abruptamente, dificultando a significação do espectador com os mesmos, assim como uma inconsistência tonal e rítmica que passa a pesar muito a partir da metade da narrativa, fazendo com que a trama soe arrastada e desprezível, com arcos sendo abandonados em detrimento de um desenvolvimento de somente poucos personagens, do começo ao fim. Como mérito inegável, o anime apresenta momentos fortíssimos de investimento emocionais, infelizmente dispostos dentro de uma irregularidade das cenas que os intercalam, fazendo com que a sensação de um alongamento desnecessário tome conta do espectador.

A série foca no desenvolvimento do arco emotivo de seus personagens, sendo assim um estudo dos mesmos. Nesse ponto, inúmeras vezes tais personagens soam irritantes e previsíveis. Apesar de apostar em uma abordagem mais pessoal, tais tramas não soam suficientemente verossímeis, dando uma sensação de identidade mal concebida ao produto.


De um ponto de vista técnico, a animação peca em ser simples e grosseira. A qualidade técnica da maioria das produções de mesmo nível já é há muito tempo superior à apresentada. Mesmo que por escolha estética, tal animação faz com que o visual pareça “barato”. Personagens figurantes que não se movem, inconsistências anatômicas gritantes e não plasticidade de movimentos estão dentro das falhas de design. Em contrapartida, os cenários são vislumbrastes em construção e execução. As cenas de terremotos e desastres apresentam nível de detalhamento incrível.

A inconsistência é o sentimento que melhor descreve a obra no geral. Uma inconsistência de conceito, ritmo, tom e narrativa. Que faz com que os breves momentos bem elaborados percam importância diante de um todo medíocre que o cerca.


NOTA: 2/5 Lágrimas


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