Quando os créditos finais dizem mais que o filme!

Crítica: The Rental

Raiana Viana


Em The Rental (2020), o ator Dave Franco faz sua estreia como diretor, além de assinar o roteiro junto a Joe Swanberg, que propõe um filme de terror envolvendo a segurança e confiança em estranhos ao alugar hospedagens familiares através de aplicativos como Airbnb.


A premissa do filme busca um conceito novo para o tema de invasão domiciliar, já bem explorado pelo gênero de horror, ao mesclar esse tema com o recente costume (principalmente vindo dos mais jovens), de alugar hospedagens particulares. É uma boa ideia, capaz de instigar o espectador ao usar o já habitual receio de muitos em relação à segurança dessas hospedagens, colocando os personagens desprotegidos, em uma situação de exposição de privacidade. Porém, a falta de desenvolvimento da premissa faz com que, o que poderia ser um filme de suspense divertido com uma proposta interessante com novos dispositivos para o gênero, acabe se tornando um filme maçante e sem comoção.


O roteiro até tenta fugir do típico suspense previsível, principalmente por boa parte dos dois primeiros atos, mas não é capaz de se sustentar, caindo nos velhos clichês do gênero. Apesar das boas atuações, o roteiro entrega os já conhecidos personagens superficiais e burros, que resolvem tomar as decisões mais aleatórias possíveis, justamente para poder colocá-los em situações de perigo. Além disso, o roteiro faz a escolha de não apresentar um único personagem carismático, talvez para tentar fugir de outro clichê: aquele da única mocinha(o) que o espectador se importa, que acaba perdendo dos os amigos, mas sobrevive no final. Sendo intencional ou não, a ideia não só não funciona, como é um dos piores aspectos do filme. A ausência de empatia pelos personagens, torna ainda mais difícil entender suas decisões, além de não dar motivos para torcer por nenhum deles, o que torna o destino de cada um algo desinteressante para o espectador. Com o desenrolar do enredo, o que resta é a curiosidade envolvendo o misterioso stalker que observa o grupo de protagonistas, mas o roteiro novamente prova sua visão unidimensional, e escolhe por mais um personagem que não possui nenhuma construção, sem apresentar qualquer motivação para suas ações.


Apesar de falhar no roteiro, Dave Franco acerta na direção. Junto das boas atuações de um bom elenco, a direção de Franco consegue prender a atenção durante os primeiros 20 minutos do filme. Sem nenhuma intenção de apresentar novas formas de direção, e um trabalho de câmera firme, Franco consegue criar uma boa ambientação para o suspense, aproveitando ao máximo o cenário sombrio à sua volta e abusando de um ritmo lento. O filme entrega uma organização e uma construção da tensão logo de início, porém com o passar do tempo, deixa no espectador uma sensação de eterna elaboração da mesma tensão, nunca de fato chegando em um clímax satisfatório. Há a noção de perigo, mas um perigo que paira no nível do mistério e que não se torna ameaçador de verdade, nem quando se apresenta em forma humana. A tensão e sensação de estar sendo vigiado está presente, contudo, não se desenvolve para quem acompanha em um sentimento de perigo real (discutível até para os personagens).


Com um enredo sem muitas emoções e explicações, The Rental passa grande parte do tempo construindo uma tensão que demora a entregar qualquer elemento de terror, e quando o faz, entrega apenas clichê atrás de clichê. Curiosamente, são nos créditos finais que o filme expõe qualquer esforço de designar uma camada a mais em um de seus personagens, quando decide por compartilhar um pequeno vislumbre do modus operandi do stalker e, talvez, o segmento mais envolvente de todo o filme.


Nota: 2/5 Lágrimas



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