O slasher noventista envolto pela abordagem contemporânea

Crítica: Rua do Medo - Parte 1 : 1994 (2021)

Gustavo Fernandes


Após o estouro do slasher no cinema ao longo dos anos 1980, a produção do subgênero decaiu consideravelmente, sendo “ressuscitada” no cinema blockbuster pelo super bem sucedido Pânico (1996) - responsável por ditar a tendência do cinema de terror estadunidense ao longo dos anos seguintes ao seu lançamento. O primeiro capítulo da trilogia Rua do Medo parte justamente de uma necessidade de reverenciar o cinema da época, embora não busque replicar sua essência estética de forma rigorosa, optando por impor uma abordagem característica do cinema adolescente contemporâneo.


O filme expõe suas intenções já em sua cena inicial, por meio de uma releitura da emblemática cena de abertura de Pânico. Aqui, no entanto, a obra encontra seu próprio caminho, impondo sua própria dinâmica à cena em questão. Essa dinâmica é refletida ao longo de todo o filme - que imediatamente revela suas intenções de agilidade e objetividade. A tensão comum aos slashers da época, geralmente construída ao longo de sequências silenciosas e com espaço para observação, é substituída pelo frenesi - afinal, o objetivo aqui é dialogar diretamente com a geração Z.


A diretora Leigh Janiak não mede esforços para que seu filme soe como um legítimo filme de terror adolescente de 2021. O uso de estímulos narrativos constantes, inclusive, remete a obras de diversos cineastas contemporâneos. A trama, inspirada numa saga literária de R. L. Stine - renomado autor de terror infanto-juvenil -, possibilita que Janiak construa seu universo de forma instigante e empregue sua estilização de modo uniforme, sem que seus traços soem deslocados.


O grande arco dramático do filme possui desenvolvimento competente, com requintes de melodrama bem situados em meio ao caos que é a atmosfera que envolve a trama. Pode-se dizer que o grande trunfo do filme é justamente assumir essa agilidade como traço característico, viabilizando uma imersão incrivelmente instigante - algo dificilmente realizado por abordagens “pop” como a proposta por Janiak. Em alguns momentos, inclusive, o enredo até surpreende justamente por conseguir dosar o melodrama com esse tom de "TikTok" cinematográfico.


Um prato cheio de referências e, acima de tudo, identidade, Rua do Medo - Parte 1: 1994 cumpre o papel de instigar e entreter. O curso proposto pela diretora encontra limitações - principalmente no que diz respeito à encenação de seus atores -, mas lida bem com elas ao conseguir elencar seus traços sob um guarda-chuva que definitivamente assume sua própria linguagem.


Nota: 4/5 Lágrimas

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