O filme metalinguístico, vistoso, cínico e carente emocionalmente de Fincher

Crítica: Mank (2020)

Arthur Pereira


David Fincher sempre escolhe a dedo os projetos que se envolve, priorizando roteiristas extremamente qualificados que adaptaram livros e escreveram textos extraordinários como Clube da Luta (1999), Zodíaco (2007), A Rede Social (2010) e Garota Exemplar (2015). Dessa vez, em um projeto pessoal sobre a era de ouro de Hollywood (escrito pelo próprio pai, Jack Fincher), o diretor desenvolve um filme esteticamente elegante, com insuficiente conexão emocional, mas que cresce quando conectado simbolicamente à obra que ele mesmo referencia, Cidadão Kane (1941), de Orson Welles.


Os créditos iniciais já imergem o público na linguagem do longa-metragem construído através de uma estrutura não linear e flashbacks que estabelecem paralelos entre a vida do roteirista, que dá nome ao filme, e a obra escrita por ele. Entretanto, o filme carece de personagens bem construídos, focando no ambiente externo da narrativa, apresentando situações de quase um século atrás que continuam recorrentes nos dias atuais – como a polarização partidária e as próprias fake news – e refletindo sobre o poder do Cinema de encantar e, ao mesmo tempo, enganar as pessoas.


Gary Oldman deve ser um dos nomes cotados no Oscar, apresentando durante duas horas de rodagem a impressão de um alcóolatra sarcástico e talentoso. A atuação de Amanda Seyfried se encaixa perfeitamente na estética do longa e todas as cenas em que acompanhamos Marion Davies são pontos altos do filme. Lily Collins entrega o possível para a demanda do papel e Arliss Howard é o que mais se sobressai entre os coadjuvantes. Tom Burke possui pouquíssimo espaço na trama e acaba entregando um personagem esquecível, o completo oposto da figura de Orson Welles.


A fotografia de Erik Messerschmidt é bela, obtém êxito em emular as técnicas do cinema preto e branco dos anos 30 e é um frescor ao recriar alguns dos icônicos planos de Cidadão Kane. A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross aparece como um dos pontos fortíssimos do longa, preenchendo o som das falas que, também gravadas em apenas um canal assim como no cinema clássico americano, são essenciais na criação da atmosfera da película.


Um filme sobre cinema. O segundo Oscar bait da Netflix nessa temporada pode ser considerado, nas palavras mais cruas e particulares possíveis, chato. Tecnicamente impecável e com interessantes abordagens políticas durante o período da Grande Depressão (que serão muito admiradas por um público restrito que possui interesse nessa época histórica); porém, aqui faltam grandes momentos, perdendo diversas oportunidades de ser tão grandiosa e eficiente quanto a história escrita por Mankiewicz. Todavia, mesmo sendo um dos piores trabalhos do currículo quase impecável de Fincher, Mank continua sendo um grande filme – inclusive um dos melhores do ano até aqui – e o diretor entrega uma obra que merece ser apreciada, fazendo jus ao trabalho realizado com tanto amor pelo próprio pai.


Nota: 4/5 Lágrimas

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