O exitoso encontro entre obra original e adaptação

Crítica: Doutor Sono (2019)

Gustavo Fernandes


Apesar de ter passado longe da aprovação do autor da obra original, O Iluminado (1980) consolida-se, atualmente, como uma das maiores obras-primas da história do cinema de terror. É possível dizer que trata-se de um dos filmes mais relevantes e ressonantes da história do gênero - caracterizado por constante ramificação e renovação. É, no mínimo, ousado dar sequência a uma obra de tamanha proporção quase 40 anos após seu lançamento. Mike Flanagan, que já havia adaptado Jogo Perigoso, outro livro de King, em 2017, assume a missão de conciliar as perspectivas de autor e cineasta, promovendo um “encontro” antes inimaginável entre ambos pincéis.


Após abordar dependência química de maneira sensível e louvável no primeiro ano da antologia A Maldição da Residência Hill - que deve ganhar uma segunda temporada ainda em 2020, aliás - Flanagan dedica boa parte do primeiro ato de Doutor Sono ao tema - traço crucial para estabelecer conexão entre o protagonista Danny e seu pai Jack retratado no filme de Kubrick. O desenvolvimento do personagem é realizado paralelamente ao de outros dois núcleos distintos, sendo um deles encabeçado pelos caçadores de “iluminados” - pessoas com dons similares aos apresentados por Danny no primeiro filme - e outro por uma garota em processo de descoberta de seus dons. A forma como os núcleos vão se desenrolando gradativamente rumo ao encontro inevitável com os outros é muito engenhosa e bem articulada, uma vez que recebe um tratamento aventuresco instigante e digno de filmes de super-heróis.


Embora competente ao dar vida ao melancólico Danny, Ewan McGregor definitivamente não possui a performance mais expressiva do filme. A misticidade maquiavélica da vilã Rose é encarnada com força e esmero por Rebecca Ferguson, protagonista dos momentos mais poderosos e emblemáticos do filme. A atriz mirim Kyliegh Curran também não desaponta e entrega um trabalho crível e à altura do desenvolvimento de sua personagem, que tem sua ingenuidade sendo suprimida gradativamente conforme desenvolve seus poderes.


Um dos mais fortes traços de Mike Flanagan é seu estilo visual, impresso do início ao fim em Doutor Sono. É interessante como mesmo as recriações de planos de O Iluminado são feitas através da roupagem típica de Flanagan, que utiliza um filtro esverdeado constante e uma iluminação bem mais suave que a empregada por Kubrick em seu filme. Aqui é necessário citar que o filme não busca conciliar apenas duas perspectivas artísticas, mas três: a de King, a de Kubrick e a de Flanagan. A engenhosidade do cineasta ao articular as três linguagens chama atenção por solidificar unidade, de alguma forma, sem permitir que alguma delas soe deslocada ou disfuncional. Essa solidificação, no entanto, é o que torna o filme mais morno do que poderia ser, perdendo força em diversos momentos devido à confluência multigênero.


Buscando construir-se como uma sequência de duas obras distintas, Doutor Sono não dispensa boas oportunidades. A grandiosidade do livro de King e a suntuosidade do filme de Kubrick estão presentes aqui, juntas, à maneira de Flanagan - que também imprime sua visão sobre a obra, atribuindo nuances muito bem-vindas. Apesar de menos brilhante e desenvolto quanto poderia ser, Doutor Sono consolida-se como um exitoso drama de terror que, se não fosse pela competente condução de Mike Flanagan, teria dificuldades para articular perspectivas tão discrepantes como as de King e Kubrick.


Nota: 3,5/5 Lágrimas


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