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Crítica: Rua do Medo - Parte 3 : 1666 (2021)

Gustavo Fernandes


O capítulo final da trilogia de Leigh Janiak, inspirada na saga literária de R. L. Stine, não possui apenas o objetivo de encerrar a trama iniciada em 1994, como também o de fortificar o máximo possível toda a mitologia que pavimenta a franquia, eternizando-a nos corações dos fãs. Após um primeiro capítulo ágil e uma sequência ligeiramente afobada, a diretora finaliza seu trabalho com uma espirituosa homenagem à própria saga de Shadyside.


A princípio, o filme retrata os primórdios da lenda de Sarah Fier - poderosa força mística antagonista dos filmes anteriores. O espectador aguarda por um salto temporal - afinal, o desenvolvimento da trama de 1994 estendeu-se até o segundo filme e ainda não teve sua própria conclusão. A primeira metade do filme, no entanto, é inteiramente ambientada em 1666, visando justamente retratar as origens da lenda de Sarah Fier e, de algum modo, de todo o contexto envolvendo a maldição da cidade de Shadyside.


A ambientação histórica, no entanto, não influencia diretamente a condução atmosférica de forma distinta. A maior preocupação de Janiak não parece ter sido a de imprimir identidade linguística específica à atmosfera rural, mas principalmente a de preservar seus traços estabelecidos no primeiro filme. Portanto, é 1666 com cara de filme adolescente de 2020. Isso não é um demérito, pois evidencia certas prioridades da diretora, além de viabilizar um sentimento de proximidade estética entre este filme e seus antecessores.


É interessante como o uso dos mesmos atores dos filmes anteriores como intérpretes dos personagens do ano de 1666 dialoga diretamente com toda a proposta temática da franquia. Haja vista o contexto inevitavelmente determinista retratado nos filmes anteriores, nada mais justo que atores já vistos anteriormente em papéis diferentes dentro da franquia assumirem personagens que, inevitavelmente, ressoarão naquele espaço ao longo dos séculos seguintes. Alguns, inclusive, terão sua vivência replicada de certa forma. O paralelo mais notório é o envolvendo Deena, protagonista interpretada por Kiana Madeira, que também assume a alcunha de Sarah Fier neste capítulo final.


Se as nuances de melodrama foram ligeiramente enfraquecidas em 1978, em 1666 elas voltam com toda a força: não há contenção de encenação. O momento mais emblemático do filme - e da franquia, eu diria -, inclusive, não é seu desfecho ou nem mesmo seu clímax, mas o momento do aguardado salto temporal, em que a trama viaja de 1666 para 1994. Toda a carga dramática pincelada anteriormente na saga encontra aqui seu ápice emocional, relembrando o espectador de que, apesar do turbilhão de elementos e acontecimentos presenciados, houve sim desenvolvimento de laços e até de certa simpatia por personagens dos filmes anteriores.


Buscando consolidar sua própria identidade contemporânea, Rua do Medo encerra sua jornada de forma envolvente e consideravelmente emotiva. A condução de Leigh Janiak conseguiu imprimir forte apelo contemporâneo mesmo à ambientação rural proposta pelo terceiro filme, o que só reforça seu objetivo de desenvolver uma unidade estilística específica entre os três longas. Cumprindo o papel de entreter e promover escapismo acessível, 1666 vai além e entrega uma jornada emocional instigante e satisfatória.


Nota: 4/5 Lágrimas

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