O chuchu disfarçado de cereja

Crítica: Cherry – Inocência Perdida (2021)

Marco Souza


Vocês já acordaram um dia e pensaram consigo mesmos: “hoje eu quero ver o ânus do Tom Holland, só que por dentro, e olhando pra fora”? Pensando melhor, não respondam. Eu tenho medo das fãs obsessivas do Tom Holland.


Enfim, Cherry – Inocência Perdida (2021), é o mais novo filme de vários gêneros que definitivamente não funcionam juntos da AppleTv+. O longa é dirigido pelos Irmãos Russo, conhecidos por nos trazer algumas das melhores joias (“do Infinito”) do universo cinematográfico da Marvel: Capitão América e O Soldado Invernal (2014), Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Vingadores: Ultimato (2019). Eles também fizeram Capitão América: Guerra Civil (2016), mas a esse ponto acho que ninguém ainda tenta fingir que é um bom filme.


Proveniente de sua longa parceria com a Marvel, os Irmãos Russo decidiram chamar o branquelo magricela que a garotada adora, Tom Holland, para estrelar num filme aonde ele interpreta basicamente uma versão masculina da protagonista de Eu, Christiane F. - 13 Anos, Drogada e Prostituída (1981), só que dessa vez sendo uma adaptação da biografia homônima de Nico Walker. Então sim, toda a desgraça naquele filme é verídica, mesmo que pareça uma tentativa falha de fazer o “filme chocante sobre drogas para traumatizar as crianças na escola” da geração Z, similar ao que Aos Treze (2003), Kids (1995), ou o próprio Christiane foram para as gerações passadas.


Cherry é um filme difícil de definir por vários motivos. Primeiramente, o filme coloca a palavra “longa” em longa-metragem, durando quase 2 horas e meia, e trocando de gênero mais rápido do que uma blogueirinha troca seu posicionamento político após ser exposta no Twitter. Começamos com uma cena de heist (roubo à banco), que corta para um flashback com tom de comédia romântica adolescente, que então corta para um filme de guerra, e aí finalmente percebemos que, depois desse tempo todo, esse foi apenas o primeiro ato. E isso porque eu sequer mencionei o dramalhão que vem em seguida.


Em segundo lugar, a incrível crise de identidade de Cherry transparece não apenas na dificuldade em se comprometer com apenas um gênero, mas até mesmo nas atuações. O carro-chefe do filme, Tom Holland, claramente não é um gênio da atuação – eu o compararia mais com um George Clooney, que só é carismático o bastante para fazer as donas de casa babarem – mas aqui, nota-se o quão despreparado o jovem realmente estava. Ele claramente está se esforçando e tentando entregar algo, mas acho que nem os diretores e nem os próprios atores sabiam qual era o real “tom” do filme. Ciara Bravo, que interpreta a namorada/esposa de Holland, demonstra uma péssima escolha de elenco, ao seguirem com uma atriz que aparenta ter 13 anos desde seu papel em Big Time Rush (2009-2013), mesmo em comparação com Holland, que num bom dia talvez passe como menor de idade.


O trabalho técnico do longa é claramente indiscutível. Não é qualquer drama indie que consegue uma nomeação no ASC (Sociedade Americana de Cinematógrafos) e uma direção de profissionais que já sabem muito bem o gosto de um sucesso de bilheteria, mas até mesmo em questões técnicas, Cherry não se compromete em entregar tudo que poderia. Durante as cenas finais do longa, por exemplo, nós vemos o mundo começando a se deteriorar através da visão de Holland, com o nome dos bancos que a personagem assalta sendo distorcidos para “Banco de Merda” ou algo do gênero. Ainda assim, esse pequeno detalhe continua jogado de escanteio, já que não vemos nenhuma outra indicação estética que demonstre o quão abalado mentalmente Holland está com o contínuo uso de drogas. Temos que esperar até o final do filme, depois que o casal principal já tenha usado todas as substâncias ilícitas na Terra, para que o departamento de maquiagem faça literalmente o mínimo com Bravo e Holland.


O termo “cherry”, nos Estados Unidos, é um inteligentíssimo duplo sentido para a narrativa, exemplificando ambos a perda da virgindade sexual (o famoso “perder o cabaço”), e a virgindade de guerra (e quiçá talvez até para o uso de drogas, mas esse seria mais metafórico do que realmente um termo que usam). Ainda assim, não posso dar esse crédito para o longa, já que o título é originário do livro que é adaptado, e honestamente, basicamente tudo que é construído até o final do segundo ato, com a introdução das drogas ao casal, é basicamente todo jogado na privada, com o objetivo de realçar uma trama já passada, até mesmo como Oscar-bait. Sim, Era Uma Vez Um Sonho (2020), estou falando de você.


Me desaponta ver um filme com tanto potencial se tornar mais um dos diversos concorrentes à temporada de premiações que não consegue sequer uma nomeação no Globo de Ouro. O material base é bom, os profissionais por trás das câmeras são bons, o elenco é...passável, mas ainda assim, acabamos com mais um “enche-catálogo” pra uma plataforma que já não é tão grandiosa assim no Brasil.


Espero que os Irmãos Russo finalmente sejam capazes de participar de um projeto à altura deles, que não seja mais um filme de herói. Espero que Tom Holland vá para uma aula de atuação e finalmente possa ganhar o título de “James Dean da geração” que as adolescentes do Twitter tanto querem dar pra ele. E, principalmente, espero que vocês notem que Jeffrey Wahlberg, o primo Diego do filme da Dora Aventureira, tem Cherry como o crédito seguinte à esse em sua filmografia. E como eu fiz a crítica dos dois, quem sabe vocês decidem seguir em frente, ler a outra crítica, e dar uma chance pra menina Dora! Eu posso assegurar que são 102 minutos muito melhor gastos do que nesse chuchu mergulhado em caldo de cereja.


Nota: 2/5 Lágrimas


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