No Ritmo do Coração - Uma reflexão sobre medo, sacrifício e desejo.

Crítica: No Ritmo do Coração (2021)

Rafael Tunussi


No Ritmo do Coração (2021), intitulado no Brasil como No Ritmo do Coração, conta a história de Ruby (Emilia Jones), uma garota de 17 anos, que, por ser a única capaz de escutar em sua família de pessoas com deficiência auditiva, fica dividida entre seguir seus próprios sonhos e auxiliar sua família, que agora precisa dela mais do que nunca. O filme foi uma grata surpresa, ao contar com 4 indicações ao Oscar, incluindo as categorias de “Melhor Filme” e “Melhor Roteiro Adaptado”.


No Ritmo do Coração é absolutamente surpreendente. Em filmes do gênero, englobando tanto musicais quanto longas que envolvem a experiência da high school americana, as personagens principais não costumam possuir metade das camadas de complexidade e de conflitos internos que existem dentro de Ruby e das pessoas a sua volta. A partir dos problemas sociais comuns de Ensino Médio que uma jovem normalmente já passa, tais são potencializados pelo preconceito dos colegas de classe com sua família. Ruby não apenas sofre bullying na escola, como também precisa resolver problemas dentro do ambiente familiar, sendo intérprete da família, intermediando as conversas, trabalhando com os pais (Marlee Matlin e Troy Kotsur) que passam por dificuldades financeiras, correndo atrás do seu sonho de seguir carreira musical (sem o apoio de ninguém) e, o pior, aguentando seu par romântico insuportável (sério, ele é muito chato).


Muitos pontos me surpreenderam em No Ritmo do Coração, e o primeiro deles foi o esforço contínuo nos primeiros 30 minutos de filme para descobrir qual o real desejo da protagonista. O filme é sobre Ruby, mas nenhum momento do primeiro ato é realmente sobre ela. A personagem faz o que a família precisa e as personalidades dos demais são apresentadas, mas a dela não. Na escola, ela vive à sombra da melhor amiga, mais popular que ela, que conta detalhes de sua vida amorosa, social e profissional, mas novamente, nada de Ruby. O primeiro momento em que descobrimos a sua essência é quando ela trai a vontade da amiga ao entrar num clube de cinema, pois aquilo era “mais sociável e legal” para seguir seus próprios passos. Ela, pela primeira vez, ignora o desejo dos outros para seguir o seu. E mesmo naquele momento, a diretora Siân Heder não permite ao espectador ter certeza sobre a convicção da protagonista, pois ela desiste do clube poucos minutos depois. Ruby vive um conflito interno muito grande entre seu desejo e seu sacrifício. No Ritmo do Coração é exatamente sobre a relação divergente entre desejo e sacrifício e, por isso, é tão especial.


Ruby se rende aos sacrifícios, e durante todo o filme, ela se sacrifica pelos outros: pelo medo da opinião dos colegas de escola, como na primeira vez que decide cantar; pelo medo de prejudicar sua família com sua ausência; por medo de tentar algo novo; por medo de fracassar; por medo em geral. A protagonista representa todos os espectadores que já tiveram que renunciar a um desejo por conta de um medo ou insegurança, por mais especial que seja, portanto é muito difícil não se identificar com a situação apresentada.


O roteiro é realmente brilhante e atinge a expectativa que a obra pedia, e honestamente, não me surpreenderia se vencesse o prêmio, apesar de não ser o favorito. A obra guia o espectador a se irritar com o impasse da protagonista, pois parece um labirinto sem saída, em que nenhum caminho será completamente satisfatório. Os obstáculos criados são gigantes, aparentemente insuperáveis, e intermináveis, sempre tem mais algum empecilho criado para prejudicar a personagem de seguir o seu sonho. Em dado momento do desenvolvimento, eu questionei se realmente queria continuar assistindo pela quantia de dificuldades criadas para Ruby. Acho que, assim como ela, o medo das minhas inseguranças foi estampado na tela, quase me fazendo ceder uma experiência com frutos incríveis. A agonia entorno desses inúmeros problemas levaram Ruby a quase desistir tantas vezes que, em certo ponto, ela realmente desiste. E o filme usa esse momento para virar a chave de forma brilhante.


O último ato me fez chorar do início ao fim, as cenas são esteticamente e conceitualmente perfeitas. A família da protagonista sempre precisou dela para alcançar seus desejos, e no final, Siân Heder faz com que o contrário aconteça de forma brilhante. A diretora utiliza o silêncio da família acompanhando a filha de forma narrativa, criando duas cenas absolutamente memoráveis, que entram na minha galeria de momentos favoritos da história do cinema. A sequência possui uma tremenda carga emocional, não só pelo vínculo familiar, mas também pela inserção do espectador na condição do outro. Durante determinada cena, saímos da bolha de Ruby, para conhecermos os sacrifícios de sua família. Arrisco dizer que, durante uma cena de poucos segundos, o protagonista muda, e apenas com esses breves instantes na pele do outro, nos faz compreender toda a sua dor. As cenas finais mostram, com muito cuidado e carinho, as dificuldades de todos os lados, e do amor das personagens umas pelas outras, mesmo que suas visões de mundo sejam completamente diferentes. Para completar, as músicas escolhidas para as duas canções principais são perfeitas para demonstrar exatamente os sentimentos de todas as personagens com a situação atual. No Ritmo do Coração não se contém em apenas nos fazer olhar para nossos próprios medos, inseguranças e sacrifícios, mas nos coloca para sentir as dos outros.


Eu comecei a assistir No Ritmo do Coração esperando um romance entre dois jovens, com eles cantando apaixonados um pelo outro, mas no final, essa era a parte menos importante. Afinal, o casal apaixonado nem é mostrado na cena mais marcante do filme. Eu terminei minha experiência com uma reflexão sobre a angústia, a revogação do ser e o desejo humano. Esses são sentimentos extremamente relacionados, e para um se livrar do outro, é necessário à sua maior ligação: o sacrifício. A minha visão de sacrifício se tornou algo muito diferente após assistir No Ritmo do Coração. Sacrifício não necessariamente precisa da conotação negativa, previamente atrelada a palavra. Sacrifício é uma mudança, a entrega de algo pela busca de outra coisa. Obviamente que a palavra já remete que algo importante será perdido nesse processo, mas a mudança sempre pode trazer algo melhor em troca.


Assistir No Ritmo do Coração me fez passar por um sacrifício, por uma mudança, e acho que vale o seu sacrifício também. Depois que você assistiu No Ritmo do Coração, sua intenção é sacrificar seu medo ou seu desejo?


Nota: 4/5 Lágrimas

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