NEVER RARELY SOMETIMES ALWAYS - O silêncio em sua versão mais crua

Atualizado: Ago 1

Crítica: Never Rarely Sometimes Always

Arthur Pereira


O vencedor do Urso de Prata de Berlim e também com rodagem no Festival de Sundance, Never Rarely Sometimes Always (2020), de Eliza Hittman, já é com certeza um dos filmes mais importantes desse ano tão atípico que é 2020. Lançado na semana do lockdown, tendo uma arrecadação e uma campanha (muito importantes para filmes independentes como esse) totalmente prejudicada, o longa-metragem pelo menos já está entre os primeiros selecionados para melhor filme do Oscar 2021. O novo filme de Hittman possui um público-alvo feminino jovem que pode se ver na pele da protagonista e trata da temática tabu do aborto, tecendo críticas ao moralismo e destacando o machismo presente na sociedade que atravessa toda a narrativa da história.


Desse modo, o filme apresenta duas jovens (Skylar e Autumn) em uma viagem da Pennsylvania para Nova York à procura de atendimento médico após uma gravidez indesejada de Autumn. A introdução às personagens ocorre sem enfeites e somos jogados em uma situação de opressão sem direito a defesa, assim como acontece com muitas mulheres na sociedade. Acompanhamos alguns dias de uma personagem que afetarão todo o restante de sua vida.


O roteiro minimalista e uma direção que tira o máximo de emoção em cenas cotidianas, em conjunto com a dupla principal das atrizes ainda em início de carreira, é o destaque da obra. Espero escutar muito os nomes de Talia Ryder (já escalada para West Side Story, próximo longa de Steven Spielberg) e, principalmente, Sidney Flanigan, que aqui possui uma das cenas mais potentes dos últimos tempos (cena que explica o instigante título do filme, que chama a atenção e inclusive foi o que me motivou a assistir a uma hora e quarenta minutos).


A troca de olhares entre a protagonista introvertida e a prima que a acompanha nessa jornada de alguns dias já dizem mais sobre amizade do que qualquer centena de linhas de diálogo. O constante cinza na arte e fotografia encaixam perfeitamente na abordagem e auxiliam no êxito do tom para instigar uma reflexão sem parecer deslocado da trama.


Ademais, o longa-metragem é gravado em um estilo quase documental, flertando com o neorrealismo italiano e outras vertentes do cinema moderno orgânico e que aproxima as personagens do público e da realidade. Para isso, a diretora utiliza do recurso do silêncio e de uma narrativa sem enfeites e melodrama que permeia muitos filmes do gênero. Uma série de cenas fortíssimas, como as primeiras formas que Autumn tenta interromper a gravidez, ressoam durante um bom tempo após a exibição. Para quem gostar do filme, uma indicação é o romeno 4 meses, 3 semanas e 2 dias (2007), de Cristian Mungiu, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.


Diante disso, Hittman coloca a realidade na tela de uma forma honesta e crua, e alguns espectadores podem acabar achando lento e arrastado, como a própria vida e as consultas médicas invasivas e entediantes são algumas vezes. O filme começa no vazio e acaba no vazio e isso pode tornar a absorção confusa. Difícil colocar em palavras o que desagrada em uma obra que a autora possui total controle da mensagem, mas talvez falte um pouco mais de prepotência intrínseca à Sétima Arte para torná-lo mais memorável e crescer com o passar dos anos. Definitivamente não é um filme para todo mundo, mas com certeza deveria ser visto por todos.


Forte e assustador em seu silêncio e regulado em seu discurso, a música “He’s got the power”, escrita por Ellie Greenwich and Tony Powers e gravada pela primeira vez pelo girl group The Exciters em 1963, irá ecoar na minha mente durante algumas semanas.


NOTA: 4,5/5 Lágrimas


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