Já passou da hora de reconhecermos como uma das melhores comédias da história

Análise: Jackass (2000 - 2021)

Lucas Raposo


Apenas lembre-se de que são profissionais, ou ao menos fingem ser; é basicamente assim que somos introduzidos ao grupo de amigos intitulado Jackass. Idealizado por Johnny Knoxville, ele e sua trupe de bobos dispuseram-se a trazer para a televisão aquilo que ela se tornou, mas não bancava ser. No apogeu da MTV, contra-atacaram a banalidade dos subúrbios trazendo o extremo de tudo aquilo que não víamos mas que, impressionantemente, queríamos ver. Com humor escatológico, provas insanas e pegadinhas das mais variadas possíveis, não é atoa que a franquia de filmes Jackass se tornou um fenômeno de público e de vendas, inspirando toda uma linhagem de humoristas.


Da facilidade material às crescentes tecnologias, assistimos a famigerada geração dos millennials em sua inconsequência grotesca, nas entranhas do vão deixado pelo capitalismo hipermoderno. Com as câmeras portáteis, facilitando na captação de vídeos, em Jackass conseguiram transbordar essa capacidade de registro mostrando o dinamismo destes estrelatos subjetivos, transformando os atores nos dublês de suas próprias vidas. É como se desde a aurora do cinema, as trucagens de Charlie Chaplin ou as ousadias de Buster Keaton fossem possíveis dentro da lógica mais caricata e absurda possível, tornando assim, Jackass uma retomada atemporal, que o permite ser engraçado por tempos posteriores.


Abrangendo às perspectivas arquetípicas com base na representação do Bobo da Corte, que por hora soa como expressão de um tolo, carente de risadas; trata-se, no entanto, daquele que entretia através de sua comicidade grotesca, mostrando o quão abobalhada tornou-se tal sociedade. É justamente assim que Jackass se apresenta como a antítese deste humor, descartando lógica, estrutura e motivação. Esses idiotas nos mostra o quão idiota somos, o quão fácil poderíamos nos divertir como se fossemos a desprendida criança inconsequente, que vive aprisionada dentro de cada adulto.


Desprezando qualquer perspectiva de futuro, centrando-se no presente e no prazer imediato, abraçado pelo masoquismo do elenco que os fazem correr risco de vida em provas, ou apenas se acidentaram propositalmente, é fruto justamente da satisfação momentânea e imediata ditada pelo comércio; embasado no meu possível filósofo favorito Gilles Lipovetsky. Em Jackass, o corpo se torna um veículo tão comercial, que não é à toa o fato dos atores estarem quase sempre usando roupas com as logomarcas das companhias de skateboard que os patrocinam, pois agora, nos encarnamos como meros outdoors ambulantes, carregando conosco a efemeridade daquilo que julgamos como estilo, mas que amanhã sequer lembraremos tanto.


Com o clássico isotipo da caveira fraturada sobre duas muletas, acompanhado da trilha sonora composta pela banda Minutemen, intitulada Corona, temos uma nítida construção da identidade da franquia pop-punk Jackass como uma marca. A fonte Helvética, criada por Max Miedinger e Eduard Hoffmann, tornou-se um marco da modernidade dentro do design gráfico, sendo um símbolo da expressão capitalista, utilizada tanto em diversas sinalizações cotidianas quanto em corporações, tipo Nestlé, Jeep, Panasonic e outras. Não é simplesmente por acaso, que na obra Jackass, há uma enorme lealdade ao uso da Helvética, uma vez que caricata o sistema, abraçando de seus gozos estúpidos.


Das televisões para os cinemas, se engana aquele que recusa o valor cinematográfico de Jackass. Da fidelidade artística na mise-en-scène à construção dos acontecimentos dentro dessa audaciosa captação, o destaque central da obra está no grande potencial performático, propositalmente aqui deixado para pensarmos por final. Se o artista performador Chris Burden chocou o ocidente no século passado, levando um tiro no braço, rolando em cacos de vidro, ou pregado em um fusca... O valor corporal veio à tona justamente porque nos tornamos apáticos à violência ou à dor. Estamos lidando com artistas que superam a arte, superando os seus limites.


O âmago da body art em Jackass, está no sadismo que nos consumiu e logo, consumimos; está na nossa hipocrisia diária de julgar e de se divertir, pois somos ridículos e por isso o ridículo teve de ser importante. Acostumamos a reconhecer um clássico somente anos após, e acredito já termos tempo o suficiente para certificar a grandeza que foi Jackass, sendo um marco na reprodução social dentro da humorística ácida. Com certeza, uma das melhores comédias que poderíamos ter.

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