Há tanta beleza no mundo... E meu coração parece que vai sucumbir

Crítica: Beleza Americana (1999)

Gustavo Fernandes


Lançado em 1999, Beleza Americana definitivamente não teve uma repercussão modesta. Vencedor do Oscar de Melhor Filme no ano seguinte, a estreia de Sam Mendes na condução cinematográfica promoveu debates que, embora frutos de seu próprio tempo, ressoam até a contemporaneidade.


Em 2020, críticas ao “american way of life” já são consideravelmente numerosas no cinema. Realizá-las com cautela e precisão, no entanto, é uma tarefa não tão recorrente na indústria. Alan Ball, que já havia roteirizado sitcoms como Grace Under Fire e Cybill, conseguiu vender o roteiro de American Beauty para a DreamWorks em abril de 1998. A partir de então, o roteirista esteve envolvido em diversas etapas do processo de produção do filme, como a seleção de elenco e até de diretor.


O longa narra a mudança de perspectiva de vida de Lester (Kevin Spacey), insatisfeito com sua rotina diária e seu casamento com Carolyn (Anette Benning). A inércia cotidiana do protagonista parece encontrar fim quando ele conhece Angela, melhor amiga de sua filha, por quem se apaixona imediatamente. A partir de então, Lester decide mudar o rumo de sua vida: larga o emprego, passa a usar maconha, fazer musculação e se dedicar a qualquer outra atividade que o permita fugir da monotonia que a vida estável provocou.


A engenhosidade do roteiro de Alan Ball transcende a crítica ao “american way of life”. Já na cena inicial descobrimos que Lester morrerá, através de um monólogo dele próprio narrando a monotonia de sua rotina cíclica. O longa, no entanto, não acompanha apenas a perspectiva do protagonista. Sua esposa, Carolyn - brilhantemente interpretada por Anette Benning -, também desempenha papel narrativo fundamental no filme. Não à toa, a personagem é corretora de imóveis e aficionada por manter as aparências. Assim como Lester, Carolyn encontra válvulas de escape da monotonia rotineira ao longo do filme. Na contramão do marido, no entanto, a personagem não expõe suas catarses, ocultando-as sob a fachada do casamento estável “ideal”.


Outras duas perspectivas tão importantes e interessantes quanto as pertencentes ao casal protagonista são as de Jane (Thora Birch) e Rick (Wes Bentley). Filha de Lester e Carolyn, Jane é uma garota retraída e com problemas de autoestima, constantemente ofuscada pelo carisma de Angela - sua melhor amiga e maior objeto de desejo do pai - e sempre vista em segundo plano pelos genitores. Já Rick é um adolescente problemático que sofre com a rígida criação do pai militar. Os dramas dos dois personagens se complementam e estabelecem um contraponto em relação aos arcos de Lester e Carolyn, justamente por serem personagens desajustados que, desde cedo, sentem insatisfação em relação ao que lhes é pautado como “normal”. Juntos, Jane e Rick protagonizam alguns dos momentos mais emblemáticos e potentes do filme, como a clássica cena em que Rick mostra um vídeo de uma sacola voando para Jane, explicando a ela a importância daquilo para ele, e como se sente ao perceber a vastidão de beleza existente no mundo.


Sob a sofisticada direção de Sam Mendes, Beleza Americana constrói sua narrativa através de seus complexos personagens. A alternância de perspectivas é fundamental para que o filme consiga instigar o público e revelar, gradativamente, suas diversas camadas. Devido à irreverência atmosférica, a densidade do enredo é suavizada durante boa parte da projeção, marcada por momentos pontuais de contemplação e reflexão, quase sempre encabeçados por Jane e Rick. Um dos alicerces atmosféricos do filme, inclusive, é a trilha sonora.


As faixas musicais de Beleza Americana são um espetáculo à parte. As composições de Thomas Newman para o longa são hipnotizantes e pra lá de intrigantes, assim como o recorte social apresentado e destrinchado pela obra. As fascinantes faixas que compõem a trilha são minimalistas e, geralmente, marcadas pela repetição de frases curtas e emblemáticas. É interessante como a música é responsável por pautar diversas sequências ao longo do filme, intensificando sua já poderosa expressividade cênica.


Outros departamentos que se destacam são a direção de fotografia e a direção de arte. Sob comando de Conrad Hall, a fotografia do filme é imprescindível para seu êxito, contando com composições primorosas e escolhas de iluminação que vão muito além da obviedade. Conduzida por Naomi Shohan, a direção de arte é responsável pela minimalista construção cênica dos ambientes a serem destrinchados pela câmera de Sam Mendes. É interessante como diversos planos ao longo do filme ostentam elementos em vermelho vívido, muitas vezes discretos e quase imperceptíveis. Outro detalhe interessante é a constante presença de rosas no filme, desde rosas genuínas no jardim da família protagonista até rosas bordadas nos suéteres de alguns personagens. O título do filme, inclusive, é uma referência à espécie de rosas cultivada por Carolyn: “American beauty” é uma belíssima espécie de rosas, no entanto, não possui cheiro algum. Trata-se de uma nítida referência ao estilo de vida oco e superficial pregado pelo senso comum.


Elencando diversas temáticas à incisiva crítica ao “american way of life”, Beleza Americana não poderia prever as diversas mudanças pelas quais a sociedade ocidental sofreria ao longo das décadas seguintes, muito menos as polêmicas problemáticas envolvendo Kevin Spacey. No entanto, o poder e ressonância da estreia cinematográfica de Alan Ball e Sam Mendes são definitivamente inegáveis no mundo hodierno - e isso não é pra qualquer um.


Nota: 5/5 Lágrimas


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