Grandeza e esperança em épico absoluto

Crítica: Liga da Justiça de Zack Snyder (2021)

Gustavo Fernandes


Já é possível dizer que a ascensão do cinema de super-heróis ao longo dos anos 2010 será uma importante pauta de estudos acerca da indústria cinematográfica e audiovisual futuramente. Um dos tópicos mais interessantes que cerceiam o assunto é a famigerada discussão entre a liberdade criativa do autor e as rigorosas exigências impostas pelos estúdios. Liga da Justiça, longa-metragem de 2017, é um dos produtos que melhor ilustram essa questão, haja vista seu turbulento processo de produção e o resultado final que, inevitavelmente, acabou soando mais como uma colcha de retalhos aleatórios do que um produto advindo de alguma fonte criativa genuína. Em 2021, o tão aguardado “corte do diretor” do filme de 2017 chegou, e com ele a satisfação de conhecer, finalmente, os conhecidos personagens reunidos sob a perspectiva grandiloquente de seu autor.


Iniciada em 2013 por O Homem de Aço, a trilogia liderada por Snyder propôs, desde o primeiro filme, uma leitura muito mais intimista de seus personagens do que propriamente enraizada no enredo de seus filmes, abrindo mão da objetividade em prol do reforço dramático. A imersão do público no subjetivo dos personagens que compõem a teia narrativa é quase sempre colocada em primeiro plano ao longo dos dois primeiros filmes e, em Liga da Justiça, a prioridade do diretor não mudou. Muito pelo contrário: mais do que nunca, Snyder demonstra ter respeito e afeto por seus personagens. Se o trabalho do diretor foi prejudicado por cortes excessivos na versão de cinema de Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (2016), dessa vez isso não foi um problema, pois sua versão definitiva foi a primeira lançada oficialmente (desconsidere a existência do filme de 2017, recheado de refilmagens infelizes assinadas por Joss Whedon).


No “Snydercut”, o diretor preserva seu estilo característico, empregando-o ao enredo de forma eficiente e identitária, articulando a narrativa para que ela seja, a todo momento, intensificada por seus traços estilísticos. Nada soa gratuito ou simplesmente “fetichista” - mesmo os vícios corriqueiros de Snyder possuem uso pontual e assertivo. O tratamento épico dado pelo diretor à história possui frescor e vivacidade - e, por incrível que pareça, um espírito naturalmente bem-humorado, mas sem perder a suntuosidade da abordagem de Snyder. Tudo soa equilibrado e bem situado, dando ao público o tempo e o espaço para a introdução e o desenvolvimento dos personagens e de seus arcos - sejam eles individuais ou a articulação coletiva da equipe-título.


Como já dito anteriormente, a tendência de Snyder de destrinchar o emocional de seus personagens permanece viva em Liga da Justiça. Dessa vez, no entanto, a abordagem do diretor é muito mais esperançosa do que niilista, distanciando-se das enfáticas questões morais de Batman vs. Superman. No novo filme, mais importante do que questionar a validade do heroísmo desmedido é reconhecer a necessidade desses seres entre os homens, e até mesmo reconhecê-los como figuras divinas. É interessante como o filme busca, a todo momento, estabelecer esse paralelo entre imperfeição e divinização. A Liga é representada, dessa forma, como um grupo tão problemático quanto grandioso, mas sempre com grande potencial. As limitações individuais de cada personagem são imprescindíveis para que eles funcionem enquanto equipe - cuja dinâmica não só é muitíssimo bem trabalhada pelo filme como proporciona desfrute genuíno de cada interação entre eles. Reconhecer os personagens individualmente e sentir o atrito existente entre eles viabiliza identificação, e isso não poderia ser feito de melhor forma.


O domínio de Snyder é nítido em grande parte dos departamentos do filme. A suntuosa trilha sonora de Junkie XL - responsável pela poderosa trilha sonora de Batman vs. Superman ao lado de Hans Zimmer - reforça a intensa curva emocional proposta pelo diretor, entregando composições que, além de valorizarem a individualidade dos personagens, fazem uso recorrente do emblemático tema da equipe-título, contribuindo com a intimidade do público para com os heróis e suas grandiosas jornadas. A alternância entre composições eletrônicas e orquestrais também contribui para que haja discernimento entre os personagens e entre as diferentes atmosferas propostas pelo filme. A individualidade é ainda mais eloquente quando levamos em consideração a trajetória de personagens como Ciborgue e Flash - meros bonecos superficiais no filme de 2017 -, dotados de carga dramática e arcos tão potentes a ponto de soarem como enredos de filmes individuais dos personagens.


Ao término da sessão, seja ela na íntegra ou fragmentada de acordo com a divisão por capítulos, Liga da Justiça de Zack Snyder é eternizado no coração do espectador como um dos grandes épicos das últimas décadas. Seu potencial de imersão emocional, deslumbre estético e impulso frenético aproxima-se de grandes obras consolidadas dentro do segmento ao qual pertence e, ouso dizer, supera muitas delas. Trata-se de uma obra rica em espírito e sentimento, com articulação narrativa tão funcional quanto memorável. Trata-se de um suspiro criativo em meio à padronização de um gênero que, comumente, sofre com déficit de experimentação. Trata-se de uma das mais potentes provas da necessidade de uma visão criativa por trás de qualquer projeto - na contramão do insaciável desejo corporativo dos grandes estúdios.


Nota: 5/5 Lágrimas



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