Escapismo, esperança e energia

Crítica: Mulher Maravilha 1984 (2020)

Gustavo Fernandes


Introduzida em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), Diana Prince protagonizou diversos momentos emblemáticos na indústria de blockbusters ao longo dos últimos quatro anos. Através das lentes de Zack Snyder, a personagem chegou ao público com fortes contornos “badass”, bem aproveitados e até potencializados pelo carisma de Gal Gadot. No ano seguinte, a personagem ganhou seu primeiro filme solo, comandado por Patty Jenkins. Apesar de voltar no tempo e narrar o primeiro contato de Diana com o mundo humano, o filme manteve, à sua própria forma, a suntuosidade do cinema de Snyder. Já em Mulher Maravilha 1984, Patty Jenkins optou por ir na contramão do que foi feito em 2017, e entregar uma aventura esperançosa alicerçada, principalmente, na vivacidade e no escapismo.


O filme possui ambientação em 1984, ano marcado por forte efervescência em diversos campos. E qual seria o maior pano de fundo político do novo longa de Patty Jenkins? Nenhum. O contexto histórico do filme está muito mais atrelado à possibilidade de desdobramentos emocionais que à abordagem de tramas específicas que só poderiam ser como são se ambientadas nos anos 80. Isso não é demérito, afinal, proposta é proposta. A trama propriamente dita acompanha Diana tendo de lidar com os efeitos adversos do achado de uma misteriosa pedra dos desejos, capaz de tornar realidade os desejos de todos que tenham contato com ela. A missão da protagonista é justamente impedir o caos generalizado que o poder da pedra pode causar em mãos erradas.


Um dos maiores acertos do roteiro de MM84 é sua estrutura narrativa, que se assemelha fortemente à de Batman: O Retorno (1992). Enquanto o longa de Tim Burton é exitoso ao trabalhar a deliciosa dinâmica entre Bruce Wayne (Batman), Selina Kyle (Mulher Gato) e Oswald Chesterfield (Pinguim), o filme de Patty Jenkins acerta ao trabalhar seu enredo através do desenvolvimento da ótima tríade formada por Diana Prince (Mulher Maravilha), Barbara Minerva (Mulher-Leopardo) e Maxwell Lord. Ambos os longas são exitosos no objetivo de estabelecer uma dinâmica relativamente agradável entre o herói-título e seus algozes.


Dentre os maiores equívocos de Mulher Maravilha 1984, não poderia deixar de citar o retorno de Steve Trevor. O personagem de Chris Pine tem lugar na narrativa e seu retorno é completamente justificável. Afinal, é um filme sobre o confronto entre as ilusões do coração e a verdade absoluta. E qual seria seria o maior desejo do coração de Diana, senão seu amado Steve? Afinal, a personagem é vista, desde o início, como uma pessoa solitária. O retorno do personagem, no entanto, faz com que o filme engate uma subtrama que definitivamente não estava pronto para engatar. Quando os traços de comédia romântica tomam conta do longa, tudo desanda. A química que um dia existiu entre Chris Pine e Gal Gadot ficou em 2017. O melodrama que o texto exige dos atores só evidencia o descompasso entre ambos.


Ao ressaltar as semelhanças entre as versões de Diana Prince impressas por Zack Snyder em BvS e por Patty Jenkins em MM, busquei evidenciar similaridades também entre os trabalhos de condução fílmica realizados em ambos os filmes. Embora mais aventuresco e sofisticado que o polêmico longa de Zack Snyder, o primeiro filme solo da heroína mantém parte da aura soturna característica do diretor, assim como os emblemáticos slow motion durante as cenas de ação. Do mesmo modo, a Diana de ambos os filmes dialoga fortemente, apesar de serem situadas em contextos completamente distintos. O mesmo não pode ser dito sobre a versão da personagem impressa por Patty Jenkins em MM84. A diretora parece ter se esforçado para eliminar grande parte da rigidez de Diana nos filmes anteriores. A sagacidade do olhar da heroína, assim como a brutalidade característica de seus golpes, sofreu imensa atenuação - que talvez seja possível chamar até de completa supressão. Isso se deve à proposta da diretora, que já disse publicamente que buscou imprimir certa “feminilidade” nas sequências de ação do novo filme, tendo como grande inspiração as coreografias do Cirque Du Soleil. Quem mais perdeu com essa abordagem foi o público que esperava por um filme repleto de sequências de ação eletrizantes como as que marcaram o primeiro longa solo da heroína.


Quem também perde com a proposta extravagante de MM84 é a própria protagonista: mais engessada que nunca. Se em BvS a rigidez da personagem soa minimamente compatível com a desenvoltura de Gal Gadot, no novo filme da heroína ocorre justamente o oposto: o excesso dramático demandado pelo texto prejudica fortemente a performance de Gadot, evidenciando as fragilidades e limitações da atriz. Na contramão de Kristen Wigg - sempre energética e super confortável -, Gal soa desconfortável e pouco desenvolta. A fragilidade da performance da atriz prejudica o texto, a direção e diversos momentos que deveriam instigar e emocionar o espectador. O que parece é que Gal Gadot, tão competente como Diana nos filmes anteriores, não conseguiu encontrar lugar junto à “nova” versão da personagem.


De volta ao departamento musical da franquia, Hans Zimmer não decepciona, mas também não entrega um trabalho suficientemente memorável a ponto de ser equiparado com suas poderosas contribuições anteriores ao DCEU. Suas composições fazem jus ao contexto e à proposta atmosférica de Jenkins, abusando de batidas sintéticas e de canções marcadas por longas frases e repetições constantes. Ouso dizer que o maior mérito musical do filme é o uso de Beautiful Lie, emblemática canção de Batman vs Superman, utilizada com maestria em um importante momento de Mulher Maravilha 1984. Apesar das fragilidades, o trabalho de Zimmer energiza diversas sequências e serve a seu propósito.


Após uma sequência de abertura eletrizante, Mulher Maravilha 1984 comete diversos tropeços irreparáveis - apesar das boas intenções -, mas isso definitivamente não cessa os batimentos do entusiasmado coração do filme. Embalado por uma trilha sonora contagiante e alicerçado num enredo passível de desdobramentos interessantíssimos - nem todos utilizados pelo filme no fim das contas -, trata-se de uma deliciosa aventura que busca transmitir, acima de qualquer coisa, uma mensagem de esperança e otimismo.


Nota: 3 / 5 Lágrimas


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