E não é que Cruella deu certo?

Crítica: Cruella (2021)

Marco Souza


Cruella (2021) é a mais nova prequela/ história de origem de uma personagem que a Disney escolheu nos dar as graças de assistir, ou em outras palavras, nos enfiou goela abaixo por uma taxa adicional de R$69,90 no Disney+. Mas pelo menos o gosto é bom dessa vez! Dirigido por Craig Gillespie, que nos agraciou com o fantástico Eu, Tonya (2017), Cruella nos conta as origens da infame Cruella De Vil (Emma Stone), agora chamada Estella, a sequestradora de dálmatas que o público mais ama odiar. Bom, talvez porque ela também é a única. E não prestem nenhuma atenção ao fato de que Eu, Tonya é estrelado por uma atriz quase que sósia de Emma Stone, e que certamente também não viveu uma certa personagem chamada “Arlequina” nas grandes telas, essa que oferece uma semelhança inegável com a caracterização da própria Cruella, nesse longa em questão. Tenho certeza que não significa nada.


Comparações a parte, Cruella é na realidade um filme que certamente impressiona. Não só por jogar o material base quase que completamente no lixo (Cruella agora não é uma completa lunática elitista narcisista, não usa peles de animais, e pra finalizar ainda gosta de cachorros!), mas também ao nos trazer uma experiência divertida, engraçada, e, acima de tudo, muito camp.


Enquanto os primeiros minutos do filme não me convenceram (mesmo que seja ridiculamente icônico que a morte da mãe de Estella se dá por um literal pontapé de um dálmata, que a empurra para um despenhadeiro convenientemente ao lado da mansão da vilã do longa), entendo que esses momentos são necessários para estabelecer os principais pontos do roteiro, mesmo que de forma mal feita e não muito natural. Claro, Estella quer tanto visitar uma fonte qualquer em Londres quando criança, que em sua fase adulta ela vê a tal fonte como uma representação da própria mãe morta dela. Faz completo sentido, não faz?


Mas o roteiro realmente brilha quando a personagem de Emma Thompson, a Baronesa, finalmente é propriamente introduzida ao espectador. É um momento em que o filme inteiro parece se ajustar para acomodar a própria presença de Thompson. Os diálogos passam a ser mais afiados e cômicos, o design de produção e o figurino realmente se esbanjam no orçamento da Disney, e o produto como um todo imediatamente assume uma postura de um completo sucessor de O Diabo Veste Prada (2006). Bom, se a personagem da Anne Hathaway fosse uma cosplayer saudosista da estética dos anos 70.


E falando em estética, temos que discutir mais a fundo toda a direção de arte de um filme que bota a indústria da moda em primeiro plano (se desconsiderarmos as discussões de eugenia e os mommy issues de Estella). Enquanto o movimento punk é uma ótima referência visual para uma personagem vista como transgressora no exato espaço-tempo em que Cruella se passa, nós nunca vemos os valores de tal movimento serem representados pelas ações de Estella. Ela se veste em lindas peças claramente remanescentes do trabalho de Vivienne Westwood, Alexander McQueen e John Galliano, mas ainda assim, Estella abaixa a cabeça para a Baronesa e simplesmente decide tomar o seu lugar quando a mesma declara que “só há espaço para uma”. Estella não quer substituir a Baronesa para mudar o sistema, mas sim só oferece uma repintura do mesmo modelo tóxico que ela deseja usufruir. Caso vocês queiram se aprofundar mais nesse tema em específico, eu fortemente recomendo a análise que a youtuber estadunidense Mina Le fez sobre o figurino do filme.


E enquanto Thompson aparenta trazer consigo as melhores partes do filme, isso ao mesmo tempo nos faz sentir falta da mesma quando não está presente. Emma Stone não é má atriz, mas quando ela precisa monologar sozinha ou interagir com quaisquer outros personagens que não são Thompson, vemos o quanto o longa perde um pouco do seu brilho. Ainda temos uma direção fenomenal e um roteiro bom o bastante em cenas como a fuga da delegacia, mas nada nos níveis de elegância e genialidade da chocante revelação do beading de casulos ou mesmo da montagem com as diversas performances que Cruella fez para irritar a Baronesa.


Cruella me dá a impressão que esse filme seria muito melhor construído se fosse feito fora do selo Disney de bom comportamento, com momentos um pouco mais pesados e representativos do puro narcisismo da personagem original, sem ter que constantemente introduzir elementos cômicos meramente para entreter crianças nascidas 20 anos depois do lançamento da animação original, ou montar arcos que rodam entorno do real significado de família, até porque sabemos o quanto uma corporação como a Disney realmente coloca o valor humano na frente do capital. Mas no lugar, o longa caiu na velha armadilha de redimir um vilão, para então introduzir um antagonista para esse personagem, e esse sim conter as características que tanto gostávamos na maldade e falta de escrúpulos do primeiro.


Quem sabe no futuro poderemos ver um “Gillespie Cut”, aonde o diretor revela todas as cenas anteriores às refilmagens, e vemos que na verdade Cruella era Arlequina esse tempo todo, e Emma Stone nada mais era que um projeto social de Margot Robbie para conseguir ganhar um Oscar.


Nota: 4/5 Lágrimas

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