Dora Aventureira & O Filme de Reparação Histórica de Indiana Jones

Crítica: Dora e a Cidade Perdida

Marco Souza


Ok, ontem teve crítica séria sobre filme bom de verdade, então hoje eu tenho que fazer uma crítica levemente sarcástica sobre um filme infantil pra equilibrar as energias do universo. Deus me livre parecer um crítico prepotente que cita Walter Salles e Stanley Kubrick a cada cinco linhas como se minha respiração dependesse disso.


Quando nós da equipe Equipe Lacrymosa™ estávamos vasculhando os novos catálogos dos serviços de streaming, procurando por pautas pras críticas, e eu vi que Dora e A Cidade Perdida (2019) iria entrar no Prime Video, eu senti que esse era meu destino. Dora Aventureira, o ícone latino que me ensinou a falar inglês (mais ou menos, mas tentou), agora estava na minha frente, com a primeira adaptação live action da franquia! Um momento como esse para nós, os aventureirers, definitivamente não podia passar despercebido! Aliás, para os que não sabiam, ao invés dela ensinar inglês para as crianças, como ela faz aqui no Brasil, Dora na realidade ensina espanhol na versão estadunidense. Eu não tenho a menor ideia se eles dublaram ela pra falar inglês e seguir o canon brasileiro, já que eu vi legendado, mas esse filme tem tantas “latinidades” (como diria Déborah dos Falsetes), que eu acho que seria em detrimento do filme.


Enfim, sobre o filme: Dora e A Cidade Perdida é exatamente o que você espera ser, mas surpreendentemente não é o pior longa de quase duas horas que eu já vi. Longe disso, mesmo fora da categoria infantil. Claramente conseguimos traçar claras inspirações a aventureiros precursores como Indiana Jones ou Lara Croft, mas Dora traz a temática de exploração em um tom completamente livre de quaisquer origens colonizadoras (e inclusive critica tais!!). Praticamente o elenco principal inteiro é de origem latina, e isso nunca é usado como piada para uma audiência branca se sentir confortável, como na realidade é usado na construção dos personagens, fazendo principalmente os espectadores hispânicos se sentirem em casa.


Não é um roteiro nível Pixar ou Disney, aonde qualquer um pode assistir e criar uma forte conexão com a história em si, mas é uma trama muito bem escrita. Piadas sobre peido, nudez e cocô a parte (e até que não são tantas), os diálogos e as piadas do filme têm um tom muito universal, a um nível que diria que uma criança pequena francamente não entenderia a maioria dos personagens, fora a Dora, mas elas provavelmente não vão ligar porque sempre está acontecendo algo divertido na tela. É o tipo de filme que mostra uma genialidade ao saber o quão estúpido ele é, e desse jeito convida adolescentes e adultos que foram forçados a assistir o longa a rir com piadas que eles sabem que as crianças não vão entender. Sério, quando a Dora olha pro céu durante a noite e do nada vê helicópteros com alto falantes perseguindo um criminoso qualquer, eu tive certeza absoluta que os roteiristas estavam adorando seu trabalho.


Os momentos iniciais do filme não são os mais fáceis: os constantes cortes entre cenas e diálogos, provavelmente para manter a atenção de crianças da geração Z que não conseguem se concentrar por 5 segundos, fazem com que em menos de 30 minutos de filme, Dora já tenha passado pelo arco de personagem inteiro do Coringa (2019). Mas após o filme tomar uma virada alá Madagascar (2005), tal edição funciona muito bem com as cenas de ação que seguem. Em teoria, você deveria se cansar antes da metade do filme, mas são tantos momentos absurdos, diálogos engraçados sobre morte e cortes entre cenas frenéticos, que você apenas joga as mãos pra cima e ri de tudo.

O roteiro não está livre de críticas, claro. Temos vários plot holes no final, o CGI do macaco vai me assombrar nos meus sonhos, e não só a premissa, mas também os personagens trabalham com estereótipos: a protagonista corajosa mas ingênua; a menina tsundere que odeia todo mundo mas se torna par romântico de alguém no final; o primo que briga com a protagonista mas se reconciliam durante a trama; o nerd que acaba salvando todo mundo; o vilão exagerado e atrapalhado que finge ser bonzinho, etc. Mas dito isso, o fato de o roteiro se comprometer a não só fazer vários foreshadowings com sucesso, mas também a trazer ensinamentos e brincar com a franquia original, mostra quanta atenção e paixão foi colocada nessa produção.


A direção de arte é incrível, a fotografia é bonita e o roteiro é inteligente, mas o fato de ser um filme infantil faz com que todos fora desse grupo achem que o filme é ruim. Me diz aqui rapidinho, o seu filme favorito por acaso tem: pais preocupados com raves; uma assistente do vilão com duas falas mas que tem um sotaque russo por alguma razão; um seguimento de desenho que faz alusão às drogas ou a própria Dora Aventureira quase gritando “MIERDA”? Acho que não.


Brincadeiras a parte, é honestamente um ótimo filme para ver com seu sobrinho pequeno se você tiver que cuidar dele por uma noite inteira, já os pais vão pra um show do Sorriso Maroto e só voltam às três da manhã. No caso, eu espero que isso não aconteça contigo em tempos de Covid-19, para a sua própria segurança. Entre assistir a nova trilogia de Star Wars de novo e ver o filme da Dora Aventureira, eu com certeza fico com a protagonista feminina bem desenvolvida, com um arco coeso e uma personalidade que enfrenta o racismo e misoginia sistémicos: e seu nome é Dora.


Nota: 4/5 Lágrimas


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