Dissonância em melodrama raso e disforme de Ron Howard

Crítica: Hillbilly Elegy (2020)

Gustavo Fernandes


Bem-sucedido na confecção de cinebiografias, Ron Howard possui uma rica carreira pelo gênero, tendo conduzido filmes como Apollo 13 - Do Desastre ao Triunfo (1995), Uma Mente Brilhante (2001) e Rush - No Limite da Emoção (2013). Após aventurar-se por outros gêneros cinematográficos ao longo das duas últimas décadas, em 2020 o diretor conduziu a adaptação de Era Uma Vez Um Sonho, autobiografia de J.D. Vance. Ao propor a confecção de um melodrama de superação, Howard reúne uma equipe de peso: atrizes consagradas, um compositor renomado e tudo o que precisa para uma obra bem-sucedida na temporada de premiações.


O longa acompanha a trajetória de J.D., de uma infância conturbada e problemática em Middleton, Ohio, até sua vida universitária como estudante de Direito na prestigiada Universidade Yale. Já no primeiro ato, o filme expõe seu principal objetivo narrativo: o estabelecimento de um paralelo entre a vida adulta de J.D. e sua infância. Por conta de sua experiência na condução de cinebiografias, Howard realizou o filme nitidamente dentro de sua zona de conforto. O que poderia dar errado?


Desde a cena inicial, a direção de Howard peca pela obviedade - conferida por um trabalho de câmera que não se esforça para impor o mínimo de identidade sobre o texto superficial e problemático de Vanessa Taylor. O uso de narração em off só piora a situação, haja vista o didatismo tremendo com que o filme se apresenta ao público. Se o trabalho de Howard seria, usualmente, conferir unidade e o mínimo de coesão ao conjunto de departamentos artísticos, aqui ele não poderia ter sido menos exitoso. Se eu tivesse que escolher uma palavra para definir o filme, escolheria dissonância. Dissonância entre Taylor, Howard, Fleming e Zimmer (por quê?) e até entre os atores, que parecem não saber onde estão metidos. Se me dissessem que cada intérprete só leu suas próprias cenas durante as gravações e que não conheciam o restante do filme, eu não ficaria surpreso.


Uma das maiores fragilidades de Era Uma Vez Um Sonho é o roteiro de Taylor, que não se esforça para estabelecer qualquer vínculo entre os personagens e o público. Se existe alguma boa intenção nas constantes explosões emocionais dos personagens, ela foi por água abaixo devido à condução disforme, apressada e sem rumo de Howard. A aleatoriedade com que o filme apresenta a progressão dramática de seus personagens não facilita o trabalho de ninguém: Tudo soa cada vez mais distante e irrelevante conforme a narrativa caminha para o fim. Até meados do segundo ato, ainda existe um lampejo de esperança no coração do espectador. Com o tempo, no entanto, qualquer possibilidade de identificação ou empatia é suprimida pelos excessos nonsense de direção.


Quanto ao elenco, tanto Glenn Close quanto Amy Adams soam patéticas do início ao fim, interpretando caricaturas coadjuvantes deslocadas e sem vida. Chega a ser risível a tentativa de estabelecer algum vínculo emocional entre as personagens já no último ato do filme, pois, ao longo das quase duas horas de projeção, não existe qualquer empenho para que elas sejam mais que objetos narrativos sem rumo. O mais triste é que ambas as personagens possuem traços verdadeiramente interessantes e passíveis de algum aprofundamento - ignorado a todo custo.


Ao mesmo tempo em que soa imatura, a direção de Howard transparece excesso de experiência numa zona de conforto que não viabiliza desenvoltura genuína. Toda faísca de vida ou emoção se esvai facilmente de Era Uma Vez Um Sonho, e isso é ainda pior quando consideramos que o filme é um melodrama - que deveria, em tese, fazer uso minimamente competente dos excessos de linguagem e provocar alguma reação sequer no público. Ao término, é difícil definir se o filme está mais próximo emocionalmente de Green Book (2018) ou de algum filme gospel para a TV, mas uma coisa é certa: ele é justamente o que não deveria ser - ou é exatamente o que deveria ser, na melhor das hipóteses.


Nota: 1,5/5 Lágrimas


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