Contemplação do caos externo e interno de um massacre que apagou as vítimas da história

Crítica: Dear Comrades! (2020)

Arthur Pereira


Dear Comrades!, de Andrei Konchalovsky, já chama atenção desde os primeiros minutos pelo formato de tela claustrofóbico em 3:4 e a fotografia belíssima em preto e branco. O candidato russo no Oscar 2021 possui como ponto de partida o reajuste dos preços de alguns alimentos e a cobrança de maior produtividade nas fábricas em uma pequena cidade soviética no ano de 1962, que ocasionou uma greve e, como reação militar nacional, o massacre Novocherkassk.


Desse modo, o que decorreu do evento foi um tabu na extinta União Soviética, já que apenas na década de 90 ocorreu a revelação dos arquivos guardados pelas autoridades e da conspiração armada pela KGB para esconder e acobertar o massacre, esclarecendo o que antes eram apenas histórias pessoais isoladas e perdas sem explicações concretas, com corpos sem nome espalhados aleatoriamente por baixo da terra de toda região.


O diretor possui controle absoluto do timing dos acontecimentos, flertando em alguns momentos com uma sátira política e histórica, e exibindo lapsos da narrativa para mostrar prisões em massa, enfermeiras assinando acordos de silêncio, bloqueio da cidade e a trajetória dos próprios snipers. Todavia, o tom frio e obscuro do filme nunca se perde em um limbo dramático-cômico, devido a efetiva sobriedade e tensão da direção.


Esses pensamentos e questões ideológicas e políticas conflitantes presentes durante todo o longa são apresentados para o público leigo e elucidados para quem já tem um conhecimento prévio da carnificina ocorrida. Todos esses conflitos externos são realocados para dentro da mente da protagonista – com dúvidas das próprias crenças e desilusões em todos os âmbitos da vida –, uma burocrata local stalinista convicta que passa por uma jornada de redenção, quando percebe que o caos político e social afeta sua própria vida pessoal, com o desaparecimento da filha.


A fotografia é marcada por planos fixos longos maravilhosos e impessoais (sendo que praticamente todos os 120 minutos de rodagem são sequências de pinturas orquestradas em movimento) alternados com planos fechados mais quentes que demonstram a emoção daqueles personagens. Em alguns momentos, Andrey Naydenov apresenta composições que remetem bastante ao cinema vanguardista soviético de Sergei Eisenstein. A cena das escadarias em O Encouraçado Potemkin (1925) com certeza foi inspiração na concepção de outra em Dear Comrades!, na qual os corpos atirados no chão são, em seguida, lançados em um caminhão, enquanto trabalhadores jogam água através de mangueiras limpando o sangue e trazendo uma falsa tranquilidade de volta.


A atenção aos detalhes na recriação de cenários e objetos cênicos possuem papel fundamental na ambientação daquela pequena cidade soviética no ano de 1962, sendo que infelizmente a atuação inconstante, principalmente de personagens secundários, acabam prejudicando a imersão do espectador promovida pela direção de arte. Julija Alexandrowna Wyssozkaja destoa com alguns belíssimos momentos e cenas ao mesmo tempo silenciosas e grandiosas.


Ademais, os diálogos desconfortáveis e violentos tornam o aspecto incômodo e honesto da obra ainda mais forte, ecoando até nos momentos de repouso, desistência e vazio. A montagem é fantástica e apresenta um match cut que fica na memória mesmo após o filme: filhotes brigando pelo leite da mãe, com uma multidão enfrentando e tentando passar pelo exército em busca de seus próprios direitos.


Assim, notas sempre são completamente arbitrárias, mas aqui me parece uma tarefa mais complexa ainda. Dear Comrades! expõe uma trama política através de uma história de amor familiar de maneira técnica e esteticamente elegante e primorosa, um ritmo desgastante que pode pesar mais ainda pela ausência de grandes pontos de virada e um clímax que parte mais para uma contemplação do que surpresas ou quebras narrativas de fato. O final compensatório tornou toda a experiência mais suave, mas falta uma unidade simbólica ou originalidade catártica no longa para que, em conjunto com todas as qualidades, tornasse-o ainda melhor, como a memorável obra polonesa Guerra Fria (2018), de Paweł Pawlikowski.


Nota: 4/5 Lágrimas


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