Boca a Boca - Refém da Agilidade

Atualizado: Ago 1

Crítica: Boca a Boca

Gustavo Fernandes


A identidade construída por Esmir Filho ao longo de sua carreira é marcada pela beleza inerente à transitoriedade adolescente. O realismo poético empregado pelo diretor a seus filmes é primoroso e, definitivamente, ímpar. Em Os Famosos e os Duendes da Morte (2009), seu primeiro longa-metragem, o cineasta entrega um belíssimo ensaio sobre as incertezas e sobre o sentimento de não-pertencimento, comuns à faixa etária frequentemente retratada em seus filmes. Seu primeiro seriado, Boca a Boca, escrito e dirigido com Juliana Rojas (As Boas Maneiras), chegou à Netflix esse mês, e apresenta, de certo modo, um ponto fora da curva na carreira do diretor, apesar de seguir abordando as temáticas mais corriqueiras de sua obra.


A trama acompanha o pânico crescente dos habitantes de Progresso, uma pequena cidade interiorana, durante o alastramento de uma misteriosa infecção transmitida através do beijo. O medo vai, gradativamente, tomando conta dos personagens e influenciando seus arcos individuais - através dos quais a série se desenrola, na contramão de seriados recentes cujas tramas têm o coletivo e o interpessoal como espinha dorsal, como Dark, série alemã que não objetiva a minúcia do desenvolvimento individual de seus personagens.


A princípio, a série fisga o espectador através de seu conjunto visual. A direção de arte abraça a proposta contemporânea de Esmir, mas sem abrir mão do retrô - atribuindo certo charme atemporal ao seriado. Progresso chama a atenção através de sua beleza ímpar em contraste com a atmosfera rural que a permeia. A direção de fotografia também é fator imprescindível para o estabelecimento atmosférico da obra, fazendo uso perspicaz da iluminação e entregando alguns belíssimos planos.


Nenhuma trama ou subtrama de Boca e Boca soa descartável ou dispensável. Cada personagem possui propósito e seu próprio alicerce no enredo. É prazeroso identificar a importância e autossuficiência de cada um, haja vista a força das diversas performances em cena, cada uma com seus momentos de destaque. Aqui devo pontuar o maior trunfo do seriado de Esmir: seu elenco.


O trio protagonista, formado por Michel Joelsas (Que Horas Ela Volta?), Caio Horowicz (Hebe) e Iza Moreira, é suficientemente forte e competente, conseguindo carregar o protagonismo e entregar boas performances. Denise Fraga fortalece o elenco encarnando uma rígida diretora de escola, tendo um dos melhores desempenhos do seriado, ao lado de Grace Passô, sempre brilhante quando interpretando a mãe de Fran, uma das protagonistas. Bruno Garcia também brilha na pele de um pecuarista inescrupuloso que não mede esforços para expandir sua propriedade.


O elenco, no entanto, perde força devido ao texto, que em diversos momentos não consegue soar mais que genérico. Alguns diálogos acabam soando antiquados quando exprimidos, mesmo por atores nitidamente conscientes de suas performances. No entanto, o maior inimigo da organicidade do texto e dos atores de Boca a Boca é a condução de seu criador.


O enfraquecimento eventual do elenco deve-se, principalmente, à direção de Esmir. O cineasta abre mão do silêncio, da melancolia e da sensibilidade que marcaram suas produções anteriores. Isso certamente deveria acontecer de alguma forma, pois trata-se de uma série voltada ao público jovem, acostumado com tramas ágeis e de ritmo acelerado. No entanto, Boca a Boca parece se opor fortemente à tendência que caracterizou a carreira de Esmir, quando o ideal talvez fosse buscar um meio-termo entre a cultuada identidade do cineasta e a roupagem “teen” comercial.


Torna-se nítido, desde o primeiro episódio, que o diretor não objetiva fortalecer o trabalho de seus atores através da direção. Pelo contrário: torna-se evidente que, se necessário, para Esmir não há nenhum problema em enfraquecer suas performances em prol de sua roupagem estética. O excesso de malabarismos de câmera, cortes e da montagem acelerada acaba tornando o ator um refém da narrativa, fazendo-o depender de todo o conjunto para fluir em cena e, muitas vezes, implicando resultados pouco satisfatórios.


Apesar de alguns tropeços, Boca a Boca cumpre, ao longo de seus seis episódios, o papel de entreter e envolver o espectador em sua teia de mistérios. Embalada por uma linguagem marcada pela agilidade da juventude contemporânea, a série fisga o público através de sua narrativa - cada vez mais consistente ao decorrer dos capítulos. Trata-se de um produto jovem e identitário que, muito provavelmente, agradará os amantes de tramas adolescentes que não temem abraçar um pouquinho de singularidade.


NOTA: 3/5 Lágrimas


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