Bebê abordo...unless...

Crítica: Unpregnant (2020)

Marco Souza


Unpregnant (2020) - que não tem tradução em português, então chamarei de Desgrávida (2020) – é a mais nova comédia coming of age meets roadtrip da HBO Max, dirigida por Rachel Goldenberg e inspirada no livro de mesmo nome, escrito por Jenni Hendriks e Ted Caplain. O longa conta a história de Verônica (Haley Lu Richardson), uma jovem de 17 anos que inesperadamente descobre estar grávida, o que a leva a secretamente viajar por diversos estados dos EUA com sua única confidente e ex-bff Bailey (Barbie Ferreira), justamente para poder legalmente realizar um aborto.


Antes que vocês tomem quaisquer opiniões, eu gostaria de botar no prefácio que sim, eu sou um homem fazendo uma crítica de um filme sobre aborto, obviamente voltado à um público feminino. Esse filme já está entre nós da Equipe Lacrymosa™ por mais de um mês, mas como nenhuma de nossas integrantes mulheres decidiram pegar o tópico para uma crítica, eu decidi sair do meu caminho para a fazer, primeiramente por conta de muitas pessoas não terem a mínima noção que esse filme existe, já que todo mundo que tinha HBO definitivamente já cancelou a inscrição depois do fim de Game Of Thrones, mas principalmente porque eu acho um tópico de extrema importância aqui no Brasil, mesmo sendo situado em um país do exterior.


Novamente, tudo isso vai vir do ponto de vista de um homem, mas eu prometo fazer um bom trabalho representando tal longa, até porque a escolha é da mulher mas elas não fazem o filho com o dedo, né. Homem nenhum têm desculpa pra ser ignorante quanto à aborto. E por favor, caso você seja contra o aborto de todas e quaisquer formas possíveis e só de ler a palavra já te faz ter vontade de citar a Bíblia, você pode simplesmente seguir adiante e ver outra coisa com o seu tempo. Mas pra todas as pessoas que querem ao menos ouvir o que a diretora e toda a produção de mulheres maravilhosas desse longa têm a dizer, continuem lendo.


Acho que em primeiro lugar, é preciso pontuar o quanto esse filme é bem atuado. Haley Lu Richardson é uma das melhores atrizes da nova geração – e isso não é surpresa pra ninguém se você já viu o igualmente incrível coming of age Quase 18 (2016) – e o nosso orgulho nacional Barbie Ferreira mostra um lado diferente de si mesma, em comparação com sua personagem em Euphoria (2019-). Ela ainda é edgy e diferentona, mas todas as linhas cômicas de Bailey são entregues com perfeição pela atriz brasileira. O resto do elenco também faz um trabalho igualmente perfeito, tendo uma representação incrível de diversidade, sem nunca forçar nada goela abaixo do espectador, pedindo por biscoitos.


Unpregnant é um filme feito com a geração Z em mente, mas de fato parece ter sido realizado por pessoas que entendem o humor e as dinâmicas da mais nova geração. Não diria que chega aos pés do clássico contemporâneo Fora de Série (2019), mas eu realmente vejo esse filme virando um dos mais novos comfort movies dos adolescentes de hoje em dia, tal como Meninas Malvadas (2004) ou As Apimentadas (2020) são pra mim. E ainda assim, como um próprio representante da geração Z, é muito satisfatório ver um filme que não se apresenta forçadamente militante ou que ainda explora estereótipos, vícios de escrita e arcos narrativos de gerações anteriores.


Mas Unpregnant não tem apenas seu humor e personagens voltados ao público jovem, já que sua mensagem também é de extrema importância para tal. É raro vermos filmes voltados ao público adolescente que exploram temáticas pesadas e atuais, mas de uma forma leve e bem humorada. Embora o longa tenha cenas dramáticas fortes, que de fato trazem ao espectador todo o nervosismo, dor e vergonha que Verônica sente, ele também faz um ótimo trabalho educando. As críticas são bastante claras: uma jovem menor de idade tendo que viajar por quatro estados justamente para poder tomar conta de algo que já se deveria ser normalizado como questão de saúde pública. Unpregnant faz questão de botar o dedo na ferida e mostrar um caso que poderia muito bem acontecer com qualquer menina da faixa etária de Verônica, independente de país, raça, nível socioeconômico ou quaisquer preconceitos que são normalmente associados à ideia de uma mulher que decide fazer um aborto.


E esse é o ponto do longa: Verônica é uma garota de classe média comum. Ela poderia muito bem ser sua vizinha, amiga, irmã, filha, sobrinha. Ninguém pensaria que uma garota branca e de origem cristã decidiria por fazer um aborto. Mas por quê? Por quê uma menina como Verônica, que fez tudo certo e só foi colocada nessa situação por causa de seu parceiro sexual imprudente, deveria pagar pelo pecado dos outros? Nas vizinhanças de Unpregnant, muitas pessoas só conseguem ver uma adolescente que engravida como uma puta descuidada, que não tem coragem de criar uma criança. Verônica, mesmo com medo do que os outros vão dizer dela, decide por pensar em si mesma primeiro. Sua vida social, sua carreira escolar, e todas as coisas que ela quer fazer como jovem vêm primeiro, independentemente do que vão dizer dela. E enquanto alguns possam a chamar de egoísta por fazer isso, eu vejo na personagem muita coragem e convicção, retomando controle de sua narrativa e de sua vida.


Infelizmente, Unpregnant não desenvolve a questão do aborto mais a fundo em relação às pressões e julgamentos familiares ou interiores de uma pessoa prestes a fazer o procedimento, mas também não acho que esse seja o ponto principal do filme. O longa é uma história de amizade e redescobrimento quando se chega no ponto mais baixo de toda sua vida até então. Sobre o que os outros dizem entre bocas semiabertas e olhares de canto de olho. Sobre todas as expectativas sobrepostas em mulheres, desde pequenas. E embora a comédia seja de longe o seu ponto mais forte, com as partes dramáticas definitivamente não chegando perto dos já mencionados Quase 18 ou Fora de Série, Unpregnant nos oferece muitos momentos de reflexão entre as diversas gargalhadas espalhadas por sua duração. Nada como chegar na clínica de aborto numa limousine, não é mesmo, meninas?


Em tese, Unpregnant pode não ter o calibre necessário pra falar sobre todas as complexidades de um tópico tão controverso e amplo como o aborto, mas definitivamente informa, critica e começa a discussão com um pé na porta. É o filme que nós sabíamos que precisávamos como sociedade, mas que nunca esperávamos que seria feito com tanta maestria e cuidado. Caso você ache que seus familiares mais conservadores sejam capazes de ao menos se abrirem à discussão sem se agitarem, Unpregnant é um ótimo começo. Se dermos sorte, poderemos finalmente ver mais filmes como esse não só sendo produzidos, mas também sendo exibidos mais amplamente sem criar picuinha e controvérsia por causa de uma questão que deveria ser muito mais discutida entre pais e filhos. Globo, acredite em mim, vai ser perfeito pro Sessão da Tarde.


E para todos que não leram meu aviso no início e decidiram passar raiva porque quiseram, aqui vai um pequeno resumo do que Verônica nos ensina:

“Se alguém lhe der um tapa na cara, vire o outro

 lado para ele bater também” – Lucas 6:29


Nota: 4/5 Lágrimas


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