Alguém sabe o PayPal da Rosamund Pike?

Crítica: Eu Me Importo (2021)

Marco Souza


Eu Me Importo (2021) é a mais nova comédia ácida com uma boa pitada de thriller a entrar no catálogo da nossa excelentíssima Netflix, que após sofrer com o rombo que as campanhas de Roma (2018) e O Irlandês (2019) deixaram em suas respectivas edições do Oscar, decidiu comprar literalmente todos os filmes que possuem até mesmo a menor das probabilidades de arranjar uma vitória em quaisquer das principais categorias das grandes premiações. Ai ai, se a A24 tivesse um terço da competitividade que a Netflix tem...


Dirigido e escrito por J Blakeson, que você provavelmente reconhece por não reconhecer, o longa acompanha o cotidiano de Marla Grayson (Rosamund Pike), uma guardiã do Estado que aplica golpes em cidadãos da terceira idade. Quando a autoproclamada “leoa” tenta acolher a meramente inofensiva (mas altamente rentável) Jennifer Peterson (Dianne Wiest), Grayson descobre que sua nova velhinha seria na verdade a porta de entrada para uma situação muito mais perigosa.


Se você ainda não assistiu o trabalho de Pike em Garota Exemplar (2014), esse é o momento da crítica em que eu questiono aonde você esteve pelos últimos sete anos, e reforço que a atuação dessa mulher é uma das mais fortes que já foram presenciadas nessas últimas décadas, independente do gênero. Embora a atriz ainda consiga trazer ótimas performances em papéis razoáveis ou claramente mal escritos – Radioativo (2019) vem em mente – Pike realmente mostra sua excelência quando é exigido mais da personagem. Então quando o roteiro chama Grayson de “leoa”, ele poderia muito bem estar se referindo diretamente à deliciosíssima dissimulação que a própria Pike parece evocar sem nenhum esforço.


Eu Me Importo apresenta uma história que foi idealizada à perfeição, como se tivesse sido escrito pela própria Marla Grayson em um prólogo de seu mais novo livro motivacional, que no final das contas não é nada mais que outra de suas maracutaias geniais. Apesar da direção saber com total certeza que seu foco deve ser completamente mantido em Pike, todos os elementos narrativos e técnicos corroboram para botar a mesma em evidência. Se Grayson não está usando uma das cores da paleta geral do filme, então ela está sendo rodeada ou iluminada por tais em diveros close ups.


Se você espera um longa a lá Aaron Sorkin, que vai te mostrar até o que um personagem terciário da segunda narrativa comeu no café da manhã, esse filme não é para você. Eu Me Importo não faz questão de detalhar o passado inteiro de todas as figuras, mas as atuações de Dianne Wiest, Peter Dinklage e Eiza González (pra citar alguns), nunca perdem fôlego, pois sabemos exatamente as motivações dos personagens. Todos têm um motivo para estarem ao redor de Pike, e cumprem seu papel de forma que nunca soam forçados ou não-característicos. Marla Grayson não precisa se preocupar com o passado, pois vive exclusivamente no presente.


Claro, algumas das escolhas narrativas podem parecer muito convenientes e óbvias, mas para brasileiros, nós honestamente vemos situações muito mais bizarras no cotidiano. Histórias como essa e a igualmente incrível Má Educação (2019), nos mostram que a cobiça e ganância sem limites do homem (estadunidense) está dentre até mesmo nossas cidades, conhecidos e círculos de amizade. Os maiores golpes não são aqueles com as quantias mais altas, mas sim os que passam completamente despercebidos por nosso sistema judicial.


Seria desonesto da minha parte falar que os últimos três minutos do filme não me desapontaram um pouquinho: você sabe exatamente aonde a trama vai chegar no início daquela conversa, e em seguida somos acompanhados por uma montagem muito inferior às demais, principalmente por um uso de CGI bastante duvidoso, que vou ser generoso ao associar à pandemia. A última cena, em especial, parece ter sido feita às pressas para agradar as audiências mais conservadoras – que provavelmente também não gostaram do final de Bela Vingança (2021) – mas acho que, no geral, a mensagem ainda é clara.


Marla Grayson é sem sombra de dúvidas a personagem mais sagaz, perspicaz e sem escrúpulos dessa temporada de premiações, e é de uma pena absurda que a dona Netflix não colou o título em seu catálogo muito antes, visto que qualquer coisa que Rosamund Pike toca vira ouro. Eu Me Importo, apesar de não atingir status de uma obra prima contemporânea, consegue cumprir todo que propõe com completa folga, atingindo êxito criativa e tecnicamente, ao mostrar que premissas inovadoras, ainda que contidas, podem ter a mesma emoção e tensão que quaisquer blockbusters de meia tigela por aí.


Mas agora, se algum leitor puder responder a pergunta do título, eu seria muitíssimo agradecido.


Nota: 5/5 Lágrimas


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