A tragédia humana universal de forma comovente e assustadora no melhor filme do ano

Crítica: The Father (2020)

Arthur Pereira


The Father é uma obra com performances brilhantes e de forte impacto emocional, do escritor renomado e diretor estreante Florian Zeller; que, inclusive, deveria estar sem dúvida entre os cinco candidatos ao Oscar de melhor direção (sendo o candidato ideal para disputar o prêmio com a favorita Chloé Zhao). Qualquer sinopse escrita aqui seria mentira. Ou verdade. Ao abordar um tema complexo como a velhice e a demência senil, o longa materializa a natureza humana através da confusão e lapsos de lucidez. O tratamento e o encaminhamento da narrativa são realizados com primor pela equipe em todas as áreas técnicas, e o desenvolvimento dos personagens, por meio de ótimos diálogos, nos torna, aos poucos, íntimos daquela família e interessados pelos vínculos entre pai e filha ali apresentados.


A partir da primeira virada da história – que acontece ainda nos minutos iniciais do primeiro ato, após uma breve e eficaz apresentação dos personagens interpretados pelos magníficos Anthony Hopkins e Olivia Colman –, a obra te envolve completamente. A decisão estilística e narrativa de colocar o espectador dentro da cabeça de um idoso doente é inicialmente chamativa, mas a forma sutil como é dirigida durante toda a rodagem é irretocável. Zeller, através da atuação de Hopkins – que conquista a segunda indicação consecutiva ao Oscar por meio de uma das melhores atuações da temporada, se não a melhor, mostrando que mesmo com a vasta e premiada carreira o ator vem se superando –, transmite o caos, desespero e medo de não se lembrar de nomes e situações simples (não reconhece o nome de parentes e a casa onde mora), e faz com que o público fique ao mesmo tempo completamente perdido e inteiramente dentro da trama.


O longa-metragem em muitos momentos inclusive flerta com gêneros como thriller psicológico e terror. Durante vários trechos percebi paralelos com a filmografia neurótica e irônica de Charlie Kaufman, mas se Zeller não é tão inventivo quanto o roteirista estadunidense, se mostra muito mais eficiente em nos comover e criar personagens que sentimos empatia. O protagonista fabrica sua própria realidade e, enquanto acompanhamos a narrativa de dentro da cabeça dele, as mudanças bruscas de comportamento dos coadjuvantes nos arrematam junto a Hopkins. O final potencialmente previsível se sobressai com a constante tensão e cresce até chegar em uma linha de diálogo específica que me quebrou completamente.


Assim como Ma Rainey’s Black Bottom, outro filme da temporada de premiações, o roteiro adaptado também é baseado em uma peça de teatro, entretanto aqui o cineasta é muito mais feliz na transformação do texto em Sétima Arte. A premiada peça Le Père (2012), escrita pelo próprio Zeller, estabelece relações fortes o suficiente para serem aproveitadas no audiovisual, mas a forma como ocorre essa adaptação para uma mídia diferente é feita de maneira sublime. O diretor utiliza todos os recursos exclusivos da linguagem cinematográfica ao seu favor para potencializar as emoções e mensagens da obra. A montagem de Yorgos Lamprinos é certamente a mais singular do ano, desnorteando e tornando toda a história coesa através de muitas brincadeiras com a noção de tempo. A fotografia de Ben Smithard não chama atenção para si, mas o instrumento auxilia perfeitamente o progresso da narrativa, além de usar planos abertos belíssimos da residência durante o decorrer do tempo, planos fechados do olhar vazio de Hopkins que nos passam mensagens sem nenhuma palavra dita e aproveitar muito bem a luz natural em cenas internas. Ademais, a trilha sonora não original de Ludovico Einaudi se encaixa perfeitamente no restante da obra, destacando a ótima seleção de músicas realizada.


O filme está indicado em seis categorias do Oscar: melhor filme; melhor ator; melhor atriz coadjuvante; melhor roteiro adaptado; melhor montagem; e melhor design de produção. Enxergo o longa como o mais forte candidato na categoria de montagem e um prêmio para Hopkins seria merecidíssimo. Mesmo com o surreal favoritismo de Nomadland, o longa de Zeller tem chances de surpreender na noite de premiações, já que provavelmente é um dos filmes menos divisivos entre os indicados.


Sem ser apelativo em momento algum ou cair em um melodrama barato, The Father é uma jornada de desorientamento e tortura enquanto estabelecemos paralelos com pessoas das nossas próprias vidas e, por isso, mesmo sem arcos épicos ou personagens memoráveis, quando os créditos sobem nos resta dúvidas sobre o que e quais pessoas de fato acabamos de ver e reflexões sobre nossa finitude em uma obra que nos toca. Se jornais americanos já descreveram Zeller como o “mais talentoso dramaturgo dos nossos tempos”, aqui no debut se mostra um grande diretor e talvez daqui alguns anos também entre em listas de grandes cineastas da nossa época.


Nota: 5/5 Lágrimas


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