A sequência nunca é melhor que o original?

Crítica: A Barraca do Beijo 2

Julia Alfa


Antes de ler essa crítica, eu preciso que você saiba que eu amo clichês. Sou apaixonada; o tipo que gosta de marcar um dia só para comer porcaria no sofá enquanto assisto algum romance água com açúcar que me faça sentir borboletinhas no estômago e me coloque prestes a cometer o erro de mandar mensagem para quem eu não devia. Pois bem, estamos entendidos? Eu amo clichês. É por isso que, ao escrever essa crítica, quero que deixem de lado a ideia de que as coisas ruins que eu falarei estarão ligadas ao gênero, porque elas não estão.


A sequência nunca é melhor do que o original, dizem. Mas... você já viu o primeiro filme da Barraca do Beijo? Eu acredito que eles tiveram sorte nesse quesito, pois já mantinham um padrão baixíssimo para superar. Quando assisti ao primeiro, queria existir na realidade de Black Mirror na qual eu poderia pegar minha memória e excluir imediatamente. Tanto me incomodou! Estamos no século XXI, no ano de 2020, e eu não quero mais ter que assistir filmes em que o homem pensa que tem qualquer tipo de poder ou posse sobre uma mulher; ainda mais, não quero garotas jovens, como a maioria do público desse tipo de produção, acreditando que isso está bem.


Bem, fazer uma sequência melhor certamente não parecia tão difícil. Entretanto, quando dei play para assistir a Barraca do Beijo 2, eu senti que estava assistindo ao mesmo filme, com algumas leves mudanças e alguns personagens diferentes. É como se o primeiro filme fosse a maquete de uma casa. Dois quartos, dois banheiros, uma sala e uma cozinha. Eles pegaram essa mesma maquete, com os mesmos cômodos, e pintaram de cores diferentes. A narrativa segue quase exatamente a mesma linha: primeiro dia de escola, alguma coisa humilhante acontece com a protagonista, então o mocinho acaba envolvido! Nisso, eles ficam nessa de gato e rato até irem se aproximando, percebendo sentimentos, e, ah! A barraca do beijo, é claro. Até mesmo ambos os finais envolviam aeroportos. Sério?


Os protagonistas desse filme são atores talentosíssimos: Joe King foi indicado ao Emmy de melhor atriz pela minissérie The Act, e Jacob Elordi faz um trabalho excepcional como Nate Jacobs na série Euphoria. Não quero colocar a culpa neles, existem até rumores de que Jacob não queria continuar com o filme... (e eu gostaria que tivesse mantido dessa forma, e então não teríamos a notícia de que A Barraca do Beijo se tornará uma trilogia).


A Barraca do Beijo 2 é, no máximo, uma história engraçadinha que poderia ser melhor com uma ou duas mudanças de roteiro. Inegavelmente melhor que o primeiro (já tivemos essa conversa sobre o contrário ser difícil), o filme ainda me possibilitou listar as coisas que me incomodaram, e não foram poucas. Começo com um incômodo pessoal da saturação da fotografia, mas também trago a gigantesca problemática de utilizar personagens étnicos basicamente de enfeite, apenas para serem bonitos, “gostosos” e servirem como pessoas que estragariam o relacionamento de Noah e Elle. Se esse filme não fosse uma sequência, o romance entre Elle e Marco Penã seria um ótimo exemplar de clichê gostosinho que eu veria nos finais de semana. Sem brigas, sem maiores problemas, sem relacionamento abusivo...


Não fosse isso o bastante, os produtores do filme não ficaram satisfeitos com a tamanha #representatividade ao terem duas pessoas étnicas no elenco, eles sentiram a imensa necessidade de colocar um personagem gay! Personagem que, aliás, não tinha relevância alguma para a história. Ele apareceu somente para ser gay. Essa era a história dele. Ele apareceu, descobrimos que ele era gay, Elle foi sua #aliada. That’s enough actvism for today.


O filme tem mais de duas horas, e poderia ter cortado ao menos 40 minutos. Aliás, se os personagens conversassem, o filme não chegaria a meia-hora de duração. Se tivesse algum conteúdo a mais e uma história mais cativante, eu entenderia. Mas basicamente foram fillers com diálogos que eu não acredito que alguém escreveu isso em um roteiro, piadas ruins que me fizeram torcer o nariz e brigas inúteis.


Eu não odiei A Barraca do Beijo 2. Eu só fortemente não gostei. Parte disso é porque minha cabeça permaneceu criando várias versões alternativas sobre como a história poderia ser melhor, e eu deixei algumas aqui, então #spoileralert:

  1. Elle percebe que Marco é o melhor par e fica com ele, e Noah realmente a traiu, provando ser o mesmo canalha que o filme anterior indicava;

  2. No primeiro filme, a briga entre Elle e o melhor amigo termina com Lee dizendo que gosta dela. Por isso, no segundo filme ele não consegue se dar tão bem com a namorada. Eles terminariam juntos, então.

  3. Elle simplesmente percebe o quanto aquele relacionamento é desgastante, dá um pé na bunda do Noah e vai para faculdade que queria desde o princípio.

Isso, claro, com atores com idade apropriada para um filme de ensino médio. É completamente desconfortável assistir o filme com uma protagonista que parece ter 15 anos e, todos os outros personagens, 25.


Por fim, não foi a pior experiência de todas. Foi mais divertido que eu imaginava. Foi muito menos problemático que o primeiro. Não, não acho que deveria haver uma continuação (nem mesmo do primeiro filme). Mas, bem, o que eu posso fazer?


Espero que o terceiro filme me renda menos páginas de críticas.


Nota: 2,5/5 Lágrimas



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