A espionagem da mãe de classe média alta

Crítica: On The Rocks (2020)

Marco Souza


On The Rocks (2020), que em livre tradução (já que não tem um título brasileiro) seria algo como Tá Uma Merda (2020), é o oitavo longa-metragem da diretora Sofia Coppola, disponível na AppleTV+. Sim, aquela Sofia Coppola. Filha de Francis Ford Coppola, diretor de aclamados filmes como O Poderoso Chefão (1972) e Apocalypse Now (1979). E a menina lá que atua mal e morre em O Poderoso Chefão Parte III (1990). Bem, ninguém é perfeito.


Tendo um pai tão renomado e reconhecido no mesmo meio em que trabalha, Sofia Coppola tem que constantemente lidar com as comparações com o próprio pai, ao ponto de que após o lançamento de qualquer um de seus filmes até hoje, sempre surge algum indivíduo que finalmente faz a conexão mental entre o “Coppola” no nome dos dois diretores, e vai assistir os filmes de Sofia com a expectativa de serem uma continuação intelectual dos filmes de Francis. E na maioria dos casos, tais indivíduos não terminam o filme felizes. Alguns sequer acordados.


Sofia Coppola tem uma clara estética que gosta de transmitir nos seus filmes: meninas de classe média alta vivendo suas vidas em meio aos problemas de seus cotidianos. A linearidade de Coppola, que enquanto para alguns é extremamente encantadora e sensível, é extremamente chata e entediante para outros. Pessoalmente, eu fico na primeira categoria. Acho o desenvolvimento uniforme das narrativas de Coppola não apenas charmoso, mas também incrivelmente realista, ao ponto de você ter certeza que a diretora não apenas te stalkeou, mas também o fez à todas as pessoas que você conhece. E em On The Rocks, isso definitivamente se mantém.


A trama genérica e simplista da "dramédia" de Coppola, impressiona com o quanto os seus personagens contrastam com a ambientação soturna e cosmopolita de Nova Iorque. Coppola, enquanto ótima com a ambientação melancólica de seus longas, também tem um êxito enorme construindo personalidades que, embora passem despercebidas pelo espectador que está acostumado com o filme mastigar tudo pra ele, desabrocham em diversas lindas personagens. O cinema da diretora não é apenas sobre a estética de bairros ricos e de problemas de primeiro mundo, mas também sobre a beleza de ser uma mulher, e o que significa ser uma durante diferentes datas, lugares e acontecimentos históricos.


Em On The Rocks, vemos o quanto a diretora realmente cresceu. Enquanto foi criticada por seu trabalho anterior O Estranho Que Nós Amamos (2017), por ter cortado as únicas personagens negras da trama, que eram escravas durante a época da Guerra Civil Estadunidense, Coppola saiu de seu caminho para mostrar representação. Pela primeira vez em sua filmografia inteira, a diretora colocou uma personagem multirracial como protagonista, Laura (Rashida Jones), que é filha de um casal de brancos e negros não apenas na ficção, mas também na vida real. Fora Laura, seu marido Dean (Marlon Wayans) é negro, suas duas filhas são multirraciais, sua mãe é negra, e diversas outras personagens são de etnias não-brancas. Botando isso em perspectiva, todos os filmes de Greta Gerwig, seu marido, Ari Aster, Robert Eggers e Woody Allen têm juntos menos representatividade que esse único filme de Coppola. E ainda ousaria botar Wes Anderson no meio, hein.


A questão racial é tão importante para a crítica desse longa pela importante questão que sempre é trazida à tona quando se conversa sobre Sofia Coppola: o machismo. Sofia Coppola foi a ganhadora do Oscar de Melhor Roteiro Original em 2004, por Encontros e Desencontros, a segunda mulher a ganhar o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 2017, por Um Estranho Que Nós Amamos, e ainda assim, tratam ela como uma diretora inferior. Seja pelas constantes comparações com o pai, pela questão racial nos filmes de Coppola ou pela “extrema feminilidade” (que nada mais é que masculinidade frágil dos espectadores) de seus filmes, sempre é possível perceber pontos de hipocrisia em que Sofia é mais criticada pelos mesmos erros ou condições que seus colegas de profissão homens. Claro, porque os filmes do Christopher Nolan são ótimos por acertar em cheio a audiência de meninos adolescentes, mas Sofia Coppola é limitada por fazer filmes para uma audiência de meninas adolescentes. Mas dó de quem acha que Coppola fica calada.


Na passividade dos longas de Coppola, nós vemos muito mais rebeldia do que qualquer outra diretora (na minha opinião). Coppola não demonstra feminismo ao botar personagens mulheres independentes esfolando vilões homens e machistas (embora soe ótimo), mas sim ao botar Laura enfrentando o pai Felix (Bill Murray) de forma calma, pontuando ao velho pai as problemáticas machistas de seus discursos antiquados, diversas vezes se necessário. Mas Felix nunca é visto como o vilão do filme, ou mesmo como um personagem totalmente insuportável. Murray é não só um ótimo ator, mas um excelente comediante com o texto de Coppola. Sem contar momentos como a bandeira LGBTQ+ no edifício em frente à casa de Laura, ou o adesivo “Bernie 2016” na porta da mesma, que são mostrados diversas vezes.


E é também nessa relação com o pai que Laura (mas todos nós sabemos que é a própria Sofia com seu pai), bota um ponto final no controle do mesmo, se mostrando por quem realmente é no desfecho do filme. Sofia mostra não só que envelheceu e cresceu como pessoa e diretora, mas também que cansou das comparações, e embora já tivesse redigido tais pontos antes em outros de seus projetos, agora se sente definitivo. Tal cena pode não ter sido o final que esperávamos tanto em um filme de ritmo já lento e linear, mas é o final que Sofia merecia.


On The Rocks não é apenas um filme incrivelmente dirigido e com uma estética maravilhosamente feminina, mas também um dedo do meio (em tons pastéis) para todas as críticas injustas que Coppola teve que lidar durante sua carreira. Um dedo do meio para os que acham suas narrativas chatas por tratarem de feminilidade. Um dedo do meio para os que a chamam de racista, mas deixam diretores indie homens saírem impunes ao cometer o mesmo erro. E um dedo do meio para todos os que ainda não entendem que pode existir mais de um Coppola, mesmo que com estéticas diferentes.


Mas provavelmente as pessoas que precisavam ler isso já dormiram no primeiro ato do filme. Bem, ninguém é perfeito.


Nota: 4/5 Lágrimas


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