A Assistente - O peso do Silêncio

Crítica: A Assistente

Raiana Viana


Nos últimos anos, a indústria cinematográfica vem sendo confrontada com diversos casos de comportamento predatório e misógino. O escândalo envolvendo um dos maiores produtores do mundo do cinema, Harvey Weinstein, hoje condenado a 23 anos de prisão por estupro e agressão sexual predatória, abriu caminho para a exposição de anos e anos de crimes sexuais praticados na indústria. Em um esforço para encorajar cada vez mais as denúncias de agressão e assédio sexual, o movimento #MeToo se tornou o principal aliado das vítimas dessa indústria, que não só perpetuou comportamentos criminosos, como fez vista grossa para qualquer rastro de denúncias até então.


E em tempos de #MeToo, o filme A Assistente (2020), dirigido e roteirizado por Kitty Green, aborda de forma ponderada e sutil o tema de abuso e assédio no ambiente de trabalho. Um drama que usa a simplicidade do cotidiano para expor como a dinâmica de poder e uma rede de silenciamento contribui para a propagação e manutenção de comportamentos ilícitos dentro do ambiente cinematográfico. A proposta do enredo é direta: logo no início do filme, somos apresentados a Jane (Julia Garner) e seu trabalho, e não demora muito para perceber que acompanharemos a personagem em sua rotina de trabalho em uma produtora como assistente de um magnata do cinema (claramente um pseudo Weinstein). O enredo é tão eficiente em sua sensatez que em nenhum momento nos mostra o chefe de Jane, apenas ouvimos sua voz em poucas oportunidades durante todo o filme. Isso porque a essência da história não está na predação sexual e sim na condescendência de um ambiente/sociedade que permite e ignora os atos desse personagem. É através de Jane (e com ela) que acompanhamos, com repulsa e agonia, a manutenção da rede de silenciamento que protege comportamentos abusivos, potencializados pela dinâmica de poder.


Por acompanhar a assistente do chefe, sabemos de todos os seus passos e ações, assim como as ações de todos a sua volta. E é assim que, através da rotina de Jane, percebemos que mesmo em um prédio com centenas de pessoas, que sabem claramente que o magnata usa de sua posição privilegiada na indústria para agir como um predador sexual no próprio ambiente de trabalho e fora dele, tratam o assunto como mais um acontecimento banal em seus cotidianos. Há aqueles que entendem a gravidade, mas escolhem ignorar, como há aqueles que não perdem a oportunidade de fazer piadas com o chefe e as vítimas. Há também quem se incomoda com a situação ao ponto de denunciar, porém a coragem é reprimida por um sistema de apoio ao agressor, pronto e disposto a qualquer coisa para abafar um relato.


O discernimento do roteiro funciona, principalmente, pela atuação de Garner. São poucos os diálogos que a atriz tem que entregar, porém quando o faz, entrega perfeitamente, no tom de voz e da cadência. Porém Garner brilha mesmo quando entrega o roteiro apenas com suas expressões faciais e corporais, a assistente Jane ganha voz através de cada olhar e gesto de medo, repulsa, derrota e alento desempenhado pela atriz. Outro ponto importante para a eficácia do roteiro está na direção do filme, que apesar de em alguns momentos tornar o cotidiano alongado e monótono além do necessário, faz um excelente trabalho em demonstrar a estrutura de poder naquele ambiente de trabalho, ao isolar Jane através de diversos planos focados apenas na personagem e sua rotina de trabalho dentro de um prédio com centenas de pessoas e, claro, acerta totalmente toda vez que opta por um primeiríssimo plano em Jane quando não há falas, apenas o peso invisível de um ambiente de trabalho assediador e silenciador.


Com roteiro, direção e atuação trabalhando em harmonia, A Assistente consegue entregar um dos melhores filmes do ano. Um filme sutil e discreto que consegue prender a atenção do espetador ao expor o dia a dia de uma assistente dentro de um escritório. Impulsionando o espectador a ficar atento a qualquer detalhe, pois o que não é visto e apenas falado nas entrelinhas, não deixa de existir, pelo contrário, se torna um processo tóxico institucionalizado, propagador de uma cultura sexual abusiva e opressora.


NOTA: 4/5 Lágrimas


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